A CIÊNCIA DA BATIDA
- Marcos Fritoli
- 23 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
O poder terapêutico da música eletrônica
Por Marcos Fritoli - Psicólogo pós-graduado em Neuropsicologia
CRP 08/21234
Há algo fascinante na forma como o corpo responde à música. Antes mesmo de entender a melodia, o corpo reage: Os músculos se contraem, o coração bate com mais emoção, a respiração muda e, instintivamente, estamos mais presentes e queremos movimento.
Isso acontece porque o corpo humano é um órgão rítmico e ele se comunica por pulsos elétricos, sincronias e repetições.
Estudos sobre neuroplasticidade¹, a capacidade do cérebro de se remodelar, mostram que a exposição musical estimula novas conexões neurais, melhora o humor e regula o estresse.
Sessões de musicoterapia têm sido usadas na reabilitação de pacientes com AVC, Parkinson e quadros de ansiedade.³ A música eletrônica, por sua regularidade e previsibilidade rítmica, oferece um terreno especialmente fértil para esse tipo de resposta. O ritmo atua como guia, favorecendo coordenação, foco e estabilidade emocional.
Quando exposto a uma batida constante, o sistema tende a se alinhar a ela. Na literatura científica, este processo tem sido estudado e definido como sincronização neural¹, que é a sintonia entre o som externo e as ondas cerebrais.
Quando as redes auditivas, motoras e emocionais passam a trabalhar em conjunto, há liberação de dopamina e endorfina — neurotransmissores que regulam prazer e
a motivação. A batida que anima e envolve também atua diretamente em nosso sistema nervoso central.²
Uma pesquisa recente¹ mostrou que esse alinhamento altera o estado de consciência de forma sutil, mas profunda. Frequências próximas de 100 batidas por minuto (ritmo comum em estilos como techno, house e downtempo) favorecem estados de sincronização neural. São condições ideais para que o pensamento desacelere e o estado de atenção plena seja favorecido.
Mas nem tudo acontece no laboratório. Quem já frequentou eventos e baladas sabe que os estímulos aumentam exponencialmente. Além das luzes e do som potentes, as pessoas se movem em ritmo alinhado e com uma intenção clara de viver o presente, podem criar um efeito de sincronização neural coletiva.
Quando seres humanos se unem nessas condições, acontece algo cada vez mais raro nos dias de hoje: alinhamento coletivo, unidade.
Sob a lente da psicologia, isso representa um momento raro de pertencimento — por alguns instantes, o indivíduo se dissolve e o isolamento dá lugar à coletividade.
O que se vive na pista pode induzir um estado específico que nos permite acessar mecanismos naturais de autorregulação. O som oferece estrutura, o movimento libera tensão e o cérebro se encarrega do resto. Por isso, a música eletrônica pode ser vista não apenas como entretenimento, mas como uma experiência de integração entre corpo e mente com efeitos terapêuticos.
É claro que o contexto individual faz toda a diferença. Transtornos psicológicos existentes e não diagnosticados, o estado emocional do momento, o ambiente e as pessoas alteram completamente a resposta cerebral. Quando o som é vivido com presença e equilíbrio, ele tem um efeito restaurador. Em situações adequadas e, para a grande maioria, a música eletrônica é uma ferramenta de regulação emocional. Mas fica o lembrete de que em casos isolados e em situações específicas, pode induzir uma resposta desregulatória.
Para os amantes da música, ela funciona como um agente promotor de saúde mental ao devolver ao organismo a possibilidade de processar emoções e se reorganizar. A cada batida o cérebro encontra um padrão relaxante e a mente se tranquiliza. É nesse estado de consciência que algo se encaixa. E é por isso que, no meio do caos moderno, precisamos tanto da música — não como uma fuga do mundo, mas como o próprio mecanismo de restauração do nosso equilíbrio.
REFERÊNCIAS & LEITURAS
Aparicio-Terrés, R.; López-Mochales, S.; Díaz-Andreu, M.; Escera, C. (2025)The strength of neural entrainment to electronic music correlates with proxies of altered states of consciousnessFrontiers in Human Neuroscience, v.19↳ https://www.frontiersin.org/journals/human-neuroscience/articles/10.3389/fnhum.2025.1574836/full
Zaatar, M. T.; Alhakim, K.; Enayeh, M.; Tamer, R. (2023)The transformative power of music: Insights into neuroplasticity, health, and diseaseBrain, Behavior & Immunity – Health, v.34↳ https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10765015/
Ibiapina, A. R. S. et al. (2022)Efeitos da musicoterapia sobre os sintomas de ansiedade e depressão em adultos com diagnóstico de transtornos mentaisActa Paulista de Enfermagem, v.35↳ https://www.scielo.br/j/ape/a/xRT56hdPydcZCM4BJXVN8HK/
As referências acima embasam cientificamente os conceitos abordados neste artigo e aprofundam a relação entre música eletrônica, neurociência e saúde mental.




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