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A PISTA VIROU PALCO: O culto do eu nas festas de música eletrônica

Celular no alto, o olhar na tela e o corpo parado. Onde foi parar a essência da cultura de pista?


Foto: Sandro Stumpf
Foto: Sandro Stumpf

Luzes baixas. A primeira batida grave não se ouve, sente-se no peito. Há uma energia que une centenas de pessoas em uma mesma frequência. Houve um tempo em que a pista de dança era um altar. Um lugar para se perder, não para ser encontrado.


A roupa era coadjuvante, o celular um peso no bolso, e o único status que importava era o de estar entregue ao momento.


Hoje, esse altar virou palco. A dança cedeu espaço à performance do eu. A imersão coletiva, que é a alma dos rolês, foi trocada pela vitrine digital onde o importante é registrar a felicidade, não senti-la.


Basta um olhar atento para perceber a mudança. A pista, antes um mar de corpos, agora se ilumina como uma constelação de telas. A preocupação em capturar o drop perfeito para um story sobrepõe-se à experiência de senti-lo. As pessoas não estão indo a uma festa para viver a experiência, mas para provar que a viveram. O artista, que deveria ser o protagonista da noite, torna-se a trilha sonora do conteúdo pessoal de cada um.


O que parece uma simples nostalgia é, na verdade, um retrato fiel do nosso tempo. O filósofo Byung-Chul Han chamou isso de Sociedade da Transparência: o mundo como vitrine, onde tudo é exposto, vendido e consumido. Guy Debord já havia previsto algo semelhante em A Sociedade do Espetáculo: o social mediado pela imagem.


Hoje, a crítica ganhou nova forma e novo cenário. As pistas de dança tornaram-se palcos dessa lógica, onde o corpo é substituído pela representação e o coletivo se dissolve em curtidas.


Ainda assim, a busca pela imersão não desapareceu. Alguns eventos, como a label ERRORR, do projeto Ruback, adotam a No Phone Policy, pedindo que o público cubra as câmeras dos celulares. A ideia é viver o momento e deixar o registro para depois. Em outro exemplo, Eric Prydz projeta nos telões de sua turnê HOLO uma mão gigante segurando um celular, ironizando a plateia que assiste ao show pela tela. São gestos simbólicos, mas necessários, para lembrar que a experiência não cabe num vídeo de 15 segundos.


O desafio que fica não é desligar o celular, e sim reaprender a olhar por meio dele. Trata-se de encontrar, entre a tecnologia e a música, uma forma de presença que ainda faça sentido. A pista sempre foi um espelho do tempo e, se agora ela reflete telas, cabe a nós decidir o que fazer com este reflexo.



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