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AGRABAH: Narrativa, cura e coerência sonora

Atualizado: 25 de fev.

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Na cena eletrônica atual, onde muitos correm atrás do hype e da estética do “DJ popstar”, ainda existem artistas que constroem trajetórias sem atalhos. Que entendem a pista como espaço de troca, pesquisa e memória.


É exatamente neste contrafluxo que a DJ e produtora Agrabah construiu o seu nome. Sem medo de arriscar e dona de uma bagagem cultural invejável, ela se tornou uma das figuras mais cativantes da cena nacional.



Mas afinal, quem é a mente por trás dessa sonoridade que transita com tanta naturalidade do Italo Disco à batucada, do House ao Techno?



Por trás do projeto está Ágatha Prado, cuja trajetória teve início muito antes das CDJs. Ainda na infância, acompanhava o pai enquanto ele mixava músicas da rádio, montava trilhas e pesquisava novos sons em casa, onde encontrou sua primeira grande referência musical.


Em entrevista à FREQUENCY, a artista recorda como esse ambiente familiar definiu sua relação com a música desde cedo:


Tudo começa com o meu pai e o fascínio dele por pesquisa, por montar trilha sonora, por gravar coisas da rádio […] e Disco Music, música brasileira... E aí vem o meu interesse pelo rock, pelo heavy metal. Foi ali que eu comecei a me instrumentalizar. Tive banda durante cinco anos, minha adolescência inteira.

Embora esse repertório construído pela escuta, pela curiosidade e pela mistura de estilos fosse rico, por um período ele não ocupou o centro das decisões.


A mudança para Curitiba trouxe a graduação em Economia na Universidade Federal do Paraná, seguida de mestrado em Políticas Públicas e o início de um doutorado. O caminho acadêmico parecia traçado. Mas a música nunca deixou de estar presente nessa trajetória.


A virada veio em 2016. Envolvida com a produção do Festival de Teatro de Curitiba, a imersão nas performances artísticas despertou nela a necessidade de traduzir aquele cenário em som.


Percebendo que a equipe da mostra Fringe não tinha um evento próprio, ela se juntou a dois amigos para criar a festa Visceral. O resultado foi um sold out no icônico 351, marcando também a primeira vez de Ágatha no comando das pick-ups. 


Foto: Divulgação / Instagram: @festivaldecuritiba
Foto: Divulgação / Instagram: @festivaldecuritiba

Este flerte inicial com a discotecagem (ainda distante do eletrônico e focado em brasilidades e sonoridades latinas  de nomes como Sonido Trópico e Nicola Cruz ) acendeu logo em seguida uma nova vontade: a de produzir o próprio som.


Eu pensei: ‘Cara, eu escuto muita música, mas eu queria uma coisa diferente na pista. Como é que eu faço isso?’ Fui atrás de alguns produtores e eles me falaram: ‘Tem um programa chamado Fruity Loops que você pode produzir sua própria música’. Aquilo me deixou muito louca.

A partir dessa descoberta, o doutorado ficou para trás. A decisão de viver da arte exigiu resiliência para atravessar os tempos de “vacas magras”, mas foi a confiança no próprio gosto musical que abriu novas portas em sua carreira artística.


Eu entrei para a gravadora chamado Gato Pardo, que hoje é uma gravadora, fundada pelo Geraldinho, o Gerra G. E ali tudo começou, principalmente a questão de produção, sabe? Ter um lugar onde eu pudesse profissionalizar e lançar minhas faixas,  

A persistência nos estúdios construiu a base necessária para que o cenário começasse a mudar. O grande salto profissional veio a partir de 2019, com apresentações em espaços maiores e, logo depois, o convite da Clipp.art — gravadora australiana responsável por nomes como 1-800 Girls e Park Hye Jin — para lançar seu segundo EP, Break Beach, em 2020.


Os meus lançamentos vieram com uma magnitude um pouco mais ampla, internacional. Quando me convidaram para lançar com eles, ali foi a virada de chave. 

Curiosamente, enquanto ganhava espaço fora, sua consolidação no Brasil aconteceu de fora para dentro. Agrabah começou a se destacar nos movimentos de rua em São Paulo, tocando sob o Minhocão e na Avenida Paulista , uma das primeiras gigs fora de sua cidade. Ela recorda de olhar para a frente e ver a multidão vibrando e devolvendo a energia do set.


O circuito seguiu pelo Rio de Janeiro e por Florianópolis, em eventos como o Sounds in da City, antes de, finalmente, dominar as pistas de Curitiba.


Ali, a consolidação veio acompanhada de vínculo. Agrabah começou a tocar na quarta edição da Covil e, desde então, tornou-se residente — posição que ocupa até hoje.


A presença na cena também incluiu passagens por clubs como a Danghai Club e diversas outras festas da cidade. Entre elas, a Discoteca Odara ocupa um lugar especial. A artista acompanhou o nascimento e o crescimento da festa, idealizada por amigos próximos, e foi convidada a tocar em 2019 — um momento marcante por representar o reconhecimento dentro de um movimento que viu surgir desde a primeira edição.


Foi logo após esses movimentos na cena que um salto ainda maior começou a se desenhar. Em meio às incertezas da pandemia, a carreira ganhou novo impulso com a chegada à GOP Tun Records.


Em 2021, o lançamento do EP Ghetto Hong Kong a colocou em outro patamar, rendendo suporte da DJ DITA no Boiler Room e ampliando sua projeção pelo país.


Foi uma coisa que eu sempre sonhei, estar nessa gravadora. Eles são pessoas que eu admiro até hoje e são meus amigos. Isso foi substancial para a minha carreira.


A CONSTRUÇÃO DA NARRATIVA


Com o som rodando o mundo, a expectativa sobre suas apresentações cresceu, mas ela sempre manteve a sua essência. Se existe algo que define um set da Agrabah, é a recusa absoluta à obviedade e uma versatilidade assumida desde os tempos do projeto Gato Pardo. 


Em seus sets, a pista é conduzida por uma viagem imprevisível, onde pode começar no Disco, ganha texturas com brasilidades e ritmos latinos, alinha em um House ou Deep House mais reto e, de repente, surpreende com um Techno.


"Nunca você vai me ver tocando um gênero só. A vida é muito curta pra gente se prender a uma única coisa", afirma a Dj.


Essa ousadia ganhou forma ao observar nomes como Trepanado e Millos nas primeiras edições das festas Selvagem. A experiência de ver um clássico como Sidney Magal ser tocado no meio da pista de dança validou sua liberdade criativa.


Assumindo o risco de tensionar expectativas, ela tem uma visão muito clara sobre o seu papel na cabine:


Eu não sou e não vou ser a DJ previsível. Se você quer previsibilidade, vai no seu YouTube Premium e dá o play. Eu estou ali para fazer uma conjunção entre o que o público espera e o que eu posso trazer, expandindo o conhecimento musical da pista.

Apesar de transitar por tantas referências, a estética musical permanece coesa. Para Agrabah, cada apresentação exige um fio narrativo com início, meio e fim, uma construção bem definida que ela credita à sua bagagem como redatora.


 "Tem um porquê de eu jogar uma batucada agora e depois conectar com um vocal, e depois voltar pra um Techno. Eu não faço isso aleatoriamente", explica.


Durante a apresentação, cada escolha é pensada no tempo da pista. Enquanto uma faixa de cinco minutos se desenrola, ela aproveita parte desse percurso para sentir o ambiente, avaliar a playlist e decidir qual será o próximo movimento.


Antes de tocar, Ágatha mantém um ritual próprio. Estuda fotos do evento, o line-up, o clima da cidade e a energia do ambiente. Foi essa sensibilidade que conduziu apresentações como um set ao pôr do sol, em um barco, no Festival Cardume no Ceará. “Eu olhava para trás, via aquele paraíso e pensava: ‘O que combina com isso agora?’ É uma conexão mágica.”


Dentro dessa jornada cuidadosamente pensada, o ponto de chegada muitas vezes já está definido. Agrabah revela que sai de casa com a última faixa escolhida, desenhando o percurso para que cada transição prepare o terreno até esse clímax. Ao inserir clássicos e faixas carregadas de memória afetiva, constrói uma narrativa que conecta passado e presente na pista.


Essa construção parte da própria sensibilidade. A artista avalia se uma música funciona a partir do que sente ao testá-la em casa, quando percebe que a faixa a toca de verdade, entende que a conexão pode se repetir na pista. Em 2024, ao abrir para Jamie XX na Ópera de Arame, confirmou essa percepção ao encerrar o set com The Sun Always Shines on T.V., do A-ha, provocando uma reação imediata e emocionada do público.


Foto: Lucas Las-Casas
Foto: Lucas Las-Casas


A PISTA COMO RITUAL DE CURA


Essa leitura de pista evidencia a camada mais bonita de sua trajetória que é a música como espaço de cura. 


Foi ao passar por um momento de extrema dificuldade que sua relação com o que faz se transformou definitivamente. A materialização dessa conexão aconteceu no Réveillon de 2021 para 2022, no Festival Xama no Rio de Janeiro.


 Eu tinha passado um 2021 terrível porque o meu pai faleceu, e o meu pai e a música eram completamente conectados. O clima tava tenso no festival, chovendo. De repente, começou um edit meu da ‘Dhimmi Dhimmi’. Todos os meus amigos atravessando a pista chamando: ‘Vem!’. E a gente chorando junto, gritando.

Ali, o set deixou de ser performance e virou um rito coletivo. “Eu gosto de fazer com que as pessoas saiam curadas de alguma forma. Assim como eu já fui curada em muitos sets”, reflete.


A troca com a pista é a base do seu propósito. Ágatha entende que as pessoas chegam ao rolê carregando problemas, mas defende que para a música agir, é preciso baixar a guarda. "Você vai para uma meditação, vai para uma terapia... você precisa se entregar", compara. 


E ela fala com a propriedade de quem também vive isso como fã:


Eu adoro ser curada pela música. Chorei com o set da Eli Iwasa no amanhecer do Cardume. Eu olhei e falei: 'Essa pessoa está me curando.

No fim, a assinatura de Agrabah não está no BPM nem no rótulo que acompanha seu nome nas plataformas. Está na coragem de misturar sem perder a coerência. Na disciplina de construir narrativa. E na convicção de que a pista de dança, quando conduzida com intenção, ainda pode ser memória, expansão e, para muitos, um lugar de cura.




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