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DAS ASAS À MÁSCARA

BLANCAh expande sua arte e retorna ao Club Vibe com o projeto HARPIA. mais densa, mais coletiva, mais ela



Ela não anunciou o pouso. Não havia como anunciar algo que ela mesma não sabia que estava acontecendo.


Por mais de dez anos, Patricia Laus existiu no ar sob o nome BLANCAh. Foi ali que construiu sua linguagem, testou seus limites e aprendeu a voar alto. A pressão acumulada de uma cena que exige velocidade e comparação chegou a fazê-la duvidar de si mesma. O mercado digital cobrou seu preço. E foi justamente no silêncio que restou depois disso, num recuo para dentro, longe do ruído, que algo começou a se mover.


Quando BLANCAh finalmente tocou a terra, assumiu outra forma. Mais densa. Mais coletiva. Com máscara, com clã e com mitologia própria.


Neste sábado (18), o Club Vibe recebe não apenas uma apresentação, como também recebe o pouso. E este pouso tem nome. HARPIA.



Durante todo esse tempo no ar, BLANCAh construiu uma carreira inteira no espaço entre o beat e o silêncio, produzindo, cantando, assinando cada detalhe da própria identidade visual com a mesma mão que também erguia o selo, a gravadora, a empresa. Mas o afogamento criativo que chegou não avisou, e foi fundo.


Passei por um período bem difícil, em que cheguei a duvidar de mim mesma e da minha capacidade de continuar na cena. Só consegui sair desse lugar silenciando os ruídos externos e as comparações, percorrendo com amor a minha trajetória e reconhecendo tudo o que construí até aqui. Voltei o meu olhar para dentro.

Desse retorno a si mesma nasceu o Music For When The World Is Silent, seu terceiro álbum de estúdio, completamente avesso às demandas do mercado. "O processo foi lindo, leve e fluido. As músicas nasceram com uma naturalidade, sem pressa nem pressão." 


Ela arrisca dizer que foi o trabalho mais maduro de toda a carreira, e que carrega algo além da maturidade técnica: "também sei que ele representou minha cura emocional." No centro de tudo, uma certeza que passou a guiar cada decisão criativa dali em diante: "minha arte, acima de tudo, precisa me representar, ser um espelho fiel de quem eu sou e do que eu acredito, não do que esperam de mim, nem do que o 'mercado' quer consumir." Era essa certeza, ainda fresca, que ela carregava quando o convite para o Lollapalooza chegou e tornou o adiamento impossível.


BLANCAh sempre teve o desejo de ter uma banda, e sempre foi igualmente consciente dos desafios que essa escolha traria consigo. Até que a oportunidade do festival se abriu como uma janela que não poderia ser fechada. "Não pensei duas vezes, era a hora de colocar tudo aquilo para fora." 


Em seis meses, tudo foi costurado: composições, convites, gravações, ensaios, visuais, ensaio fotográfico, conteúdos para os telões.


Ao lado de Sarah B, Mari-Anna e Maddox, quatro mulheres de personalidades fortes e distintas, ela chegou ao festival com uma estrutura que o próprio time técnico do palco desconhecia até os últimos dias. "O pessoal do festival nem imaginava que, em vez de uma DJ, receberiam uma banda", ela ri. Do acerto daquele palco nasceu algo maior do que um show. Nasceu um clã.



Comandar um coletivo, no entanto, exige um tipo diferente de coragem de quem sempre foi radicalmente autossuficiente. O maior desafio, ela admite, tem sido "lidar com as diferenças e aceitar que, ao longo do caminho, haverá opiniões divergentes das minhas." 


O que facilita esses processos é a maturidade partilhada entre todas. 


Somos todas mulheres maduras. A Mari e a Maddox são mães, e estamos vivendo um momento muito potente das nossas maturidades, o que contribui para que os processos de entendimento sejam mais fluidos e os diálogos mais construtivos.

É dessa mesma maturidade, dessa consciência de gênero que ela diz ter acordado nos últimos anos, que nasce a estética inteira do projeto.


BLANCAh é um pássaro que nunca pousa. Esse pássaro nasceu no ar, em plena queda livre, e teve de aprender a voar antes que se esfacelasse no chão. Desde então, mais de dez anos depois, nunca pousou, até agora. Quando finalmente resolveu tocar a terra, esse pássaro se transformou em HARPIA, uma mulher, uma bruxa.

É com essa precisão, a de quem habitou a história por dentro, que ela conta a mitologia que sustenta tudo. E cada detalhe cênico responde a ela: as máscaras, os figurinos construídos com o figurinista Bruno Ferreira, os adereços produzidos pela performer Maddox. Uma estética densa, oposta à leveza quase etérea de BLANCAh, uma armadura que é ao mesmo tempo um convite. 


Esconder os rostos, para mim, é algo fundamental. Atrás de uma máscara cabem todos os rostos do mundo, e eu quero que toda mulher que se identifique conosco possa se sentir representada por nós.

A bruxa, neste contexto, não é fantasia. É reivindicação. 


Em leituras recentes, me deparei com a ideia de que toda mulher deve reivindicar e ressignificar a figura da bruxa, historicamente distorcida, marginalizada e associada ao medo. Isso fez muito sentido para mim. A minha maneira de ressignificar essa imagem é evocá-la no palco como símbolo de força, presença e poder feminino.

Harpia live at Lollapalooza Brazil - 2025

Toda essa força, no entanto, precisa de estrutura para existir, e é aí que entra a Hiato Music, o selo independente que BLANCAh construiu com as próprias mãos. Ter autonomia total sobre a própria obra foi fundamental, mas a gestão trouxe um peso invisível. 


Passo mais tempo cuidando de temas burocráticos e de questões relacionadas ao funcionamento interno de uma pequena empresa, e isso acaba tirando meu tempo de estúdio.

Para equilibrar essa dinâmica e lidar com as expectativas de quem lança pela label, ela decidiu estreitar os laços: tornou a gravadora ainda mais exclusiva, focando em uma pequena comunidade de artistas em quem confia para trabalharem como uma verdadeira família.


A curadoria é guiada por fatores inegociáveis: uma sonoridade que ela mesma define como "madura e elegante" e, principalmente, o caráter humano.


Eu jamais conseguiria trabalhar com alguém cujo caráter seja duvidoso ou que me deixe desconfortável. Também não me alio a pessoas apenas por interesse comercial, preciso estar conectada em um nível mais humano.

Foi essa busca por afinidade que a conectou aos produtores curitibanos Neoclassic e Masaaki, que entregaram verdadeiras obras-primas para o selo e reforçaram sua visão sobre a importância de escolher a dedo quem caminha ao seu lado.


O resultado dessas escolhas elevou a Hiato a uma dimensão impressionante. O alcance da gravadora vai muito além dos suportes em sets de nomes como Facundo Mohrr e Zac; mesmo sendo jovem, o selo já ostenta em seu catálogo lançamentos assinados por gigantes da cena internacional, como Hernán Cattáneo & Mercurio, Aaron Suiss, Paul Anthonee, Gleen Morrison, Eze Ramirez e Citizen Kain. Essa validação global é um reflexo direto da credibilidade da sua fundadora.


Quando convido um artista de grande porte para lançar comigo, ele não olha para o tamanho da gravadora, e sim para a dimensão da artista que está por trás do projeto.

É essa dimensão, construída ao longo de dez anos, que chega ao Club Vibe neste sábado.


O Vibe não é apenas mais um palco em sua trajetória. É lugar de memória afetiva, de confiança construída show a show, de casas cheias que ajudaram a formar a base de fãs que BLANCAh tem em Curitiba, e levar a HARPIA para lá carrega o peso de um ritual. 


Significa uma renovação de votos de confiança entre nós. Tanto o clube quanto o público farão parte da história da Harpia para sempre.

A noite terá duas camadas: primeiro o show da HARPIA, com synths, controladoras, canto e presença cênica coletiva; depois, BLANCAh assume o set solo, mantendo a linha melódica, progressiva e hipnótica que sempre marcou sua identidade. A transição entre as duas energias admite ainda ser um  território descoberto.


Esta noite será de muitas experimentações. Esse formato será apresentado pela primeira vez, então tudo carrega um ar de novidade e frescor. O frio na barriga voltou a fazer parte da rotina.

Quando pedimos uma única faixa para carregar o peso desta noite, ela não hesita. Terracotta. Uma escolha perfeita de sua própria discografia. Argila que já tem forma, mas ainda não sabe tudo que pode ser, entre o que foi moldado e o que o fogo ainda vai revelar


Meu desejo sincero é que as pessoas possam voltar para casa impactadas por uma experiência musical, estética e visual diferenciada, que se lembrem de nós por muito tempo, que tenham vontade de falar, compartilhar e caminhar conosco nessa jornada que está só começando.

Dez anos de voo, um álbum composto no silêncio, um clã convocado em seis meses, um palco que sempre a recebeu de casa cheia e ainda assim, frio na barriga. Não por medo. Por respeito ao que está nascendo.


O pássaro pousou. A bruxa acordou. O clã chega a Curitiba.


Todo mundo tem uma HARPIA dentro de si. A minha se materializou no formato de uma banda, quando tive coragem de dar vida a esse propósito e segui-lo. A sua HARPIA é outra, e cabe a você descobri-la e materializá-la para se sentir completo.

Assista ao set de BLANCAH gravado no dia 14.03, direto da La Estacion, na Comuna San Roque.

Serviços:

BLANCAh apresenta H.A.R.P.I.A (Club Vibe)

🗓 18 de abril | sábado

🎟 Ingressos disponíveis no site do clube e na Blueticket

Live performance: H.A.R.P.I.A

Line-up: HARPIA, BLANCAh, Mari-Anna b2b Sarah B, Maddox e DJ Floww.

Infos: @clubvibe


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