NO RITMO DAS MÁQUINAS: O Techno em Curitiba
- Guilherme Dezone

- 11 de fev.
- 3 min de leitura

Quando se fala em música eletrônica, não dá para não pensar no Techno, uma das principais vertentes do gênero. Existe uma lógica muito específica que faz o corpo se mover quase sem mediação.
Quem frequenta as pistas sabe do que estou falando: o kick “seco” marcando o tempo, o snare organizando o contratempo, o hi-hat abrindo espaço e criando pressão pela repetição. É uma engenharia sonora baseada no compasso 4/4, geralmente entre 120 e 150 BPM, pensada para sustentar estados prolongados de escuta e movimento, capaz de levar o público a um estado de transe durante os sets.
Mas reduzir o gênero a essa estrutura técnica seria injusto. O que Juan Atkins, Derrick May e Kevin Saunderson, conhecidos também como “Belleville Three", fizeram em Detroit, nos anos 80, não foi apenas criar um ritmo. Foi estabelecer uma cultura.
Enquanto Chicago celebrava suas pistas com a House Music e sua herança direta da Disco, Detroit transformava o som das fábricas em música futurista e industrial, construída para longos percursos, onde a narrativa importa mais do que o impacto imediato.
No Brasil, essa sonoridade ganhou força a partir dos anos 90, impulsionada por espaços como o Hell’s Club, em São Paulo, e pela atuação de Anderson Noise. Um dos pioneiros da música eletrônica no país, ele fundou o selo Noise Music (o primeiro dedicado ao gênero) e teve papel importante na consolidação da cena naquele momento.
Já Curitiba, também na década de 90, teve no clube Circus um ponto de partida. Apesar de transitar por outros gêneros, a casa foi uma das primeiras a introduzir o Techno e, somada a outros clubes fundamentais para a formação de base, permitiu o surgimento de espaços de referência, como o Club Vibe, ativo desde 2001, e o extinto Zeitgeist.
Foi essa conjunção de fatores que serviu para consolidar o público local. Mas o Techno aqui deixou de ser apenas o que se ouve dentro do clube para se tornar uma linguagem cultural. Ele aparece no modo de ocupar a noite, no estilo de vida, na estética e na postura de quem encara a pista como um espaço coletivo.
O momento que vivemos hoje marca uma virada importante. Cansado de fórmulas prontas, o público buscou novos ares. A cena deixou de depender exclusivamente de grandes nomes internacionais ou de clubes tradicionais para se sustentar. A força passou a vir de dentro, das festas independentes e dos coletivos que entenderam a demanda por sonoridades mais intensas.
Vejo isso com clareza em coletivos como 4x4 e Ciclo. Ambos compreenderam que fazer Techno não é apenas montar um line-up, mas criar uma experiência imersiva — muitas vezes em galpões industriais ou locais inusitados, onde a estética e a liberdade são tão importantes quanto a música.
Eles expandiram suas curadorias para vertentes como o Acid e o Hard Techno, não apenas para acelerar o BPM, mas para buscar uma textura mais corrosiva e energética que dialoga com o momento atual.
Essa busca pelo "peso" ecoa também em iniciativas como Techno Inside, Desorient Techno e Overdrive, que ampliaram o espectro sonoro da cidade, empurrando o público para fora da zona de conforto. A Ch4os completa esse movimento ao apostar em curadorias que fogem do óbvio e mostram que existe escuta para propostas menos previsíveis.
No centro disso tudo, está uma geração de DJs locais que dominam a construção narrativa e a leitura de pista. Nomes como Anysa, Baby B, Bervon, Bry Ortega, Nalla, Nati M e Orsked compartilham o mesmo rigor técnico e a capacidade de articular diferentes momentos da noite sem perder a identidade. São artistas cujas trajetórias não se isolam, elas dialogam com uma tradição maior do gênero, mas se constroem a partir da realidade da cidade.
Esses artistas integram um circuito vasto e em constante expansão. Ao lado deles, diversos outros núcleos e produtores seguem movimentando a cidade, garantindo a renovação do público e a permanência do gênero como uma força cultural ativa.
Curitiba tem fama de fria. Mas quem já esteve no meio da pista, de madrugada, sentindo a batida ao lado dessa comunidade, sabe que isso é só superfície. A cidade ferve, no ritmo constante das máquinas e na persistência de quem escolheu fazer do Techno mais do que música.





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