O EFEITO HUGEL
- Richard Marty

- 28 de mai.
- 3 min de leitura
COMO O MARKETING FOCADO NA OBJETIFICAÇÃO FEMININA AMEAÇA A EVOLUÇÃO DA CENA ELETRÔNICA GLOBAL
A música eletrônica nasceu como um espaço de libertação e acolhimento. No entanto, à medida que o mercado se expande e os algoritmos passam a ditar as regras do sucesso, velhos fantasmas do machismo estrutural encontram novas formas de se fantasiar de "tendência". O caso mais recente e emblemático desse fenômeno atende pelo nome de HUGEL.
O produtor francês, que estourou globalmente com seus sets e produções de Afro House e Latin House, tornou-se um fenômeno de Reels e TikToks virais. Mas por trás das batidas envolventes, há uma estratégia de marketing agressiva que acende um alerta vermelho na cena mundial: a transformação do corpo feminino em mero produto de prateleira para vender música.
Quem consome o conteúdo de HUGEL nas redes sociais depara-se com um padrão milimetricamente calculado. Seus vídeos virais raramente focam apenas na técnica, na pista ou na música em si. O centro das atenções é o seu backstage, sempre povoado por mulheres rigorosamente hiperproduzidas.
Nessa narrativa visual, as mulheres não ocupam o espaço como artistas ou produtoras; elas são posicionadas como figuras decorativas para inflar o status do artista masculino.
A narrativa se consolida na própria identidade do DJ, a começar por seu selo, batizado sugestivamente de Make The Girls Dance ("Faça as Garotas Dançarem"). A frase de efeito que estampa sua biografia oficial no Instagram reforça a mesma lógica: "Não faça pelo dinheiro, faça pelas Latinas".
O que é vendido como uma "homenagem" ou "celebração da cultura latina" soa, na verdade, como uma clara objetificação de gênero. A mulher é colocada puramente como uma ferramenta de marketing do produtor francês para impulsionar a venda de ingressos, transformando o público feminino em um mero produto de prateleira.
O grande perigo do "efeito HUGEL" não está isolado na tela do celular; ele valida e fortalece uma dinâmica que a cena eletrônica tenta combater há anos. Quando um artista de escala global valida a imagem da mulher como um "atrativo de marketing", ele dá aval para que clubes, bares e promotores de eventos continuem utilizando estratégias comerciais já orgulhosamente ultrapassadas.
Quantas vezes você já viu a famosa dinâmica em baladas pelo mundo onde a mulher é VIP ou paga um ingresso consideravelmente mais barato até determinado horário, enquanto os homens pagam o dobro ou o triplo desse valor?
Essa disparidade de preços não é um ato de cavalheirismo ou um "benefício" para o público feminino. É uma estratégia de negócios perversa: reduz-se o preço da mulher para usá-la como isca para atrair o público masculino pagante.
Ao normalizar o "backstage vitrine", conteúdos como os de HUGEL incentivam contratantes e donos de clubes a pensarem a noite da mesma forma. O público feminino deixa de ser visto como parte da comunidade de fãs e consumidoras de música para ser tratado como a "mercadoria" que preenche o espaço.
O preço que a cena paga por esse tipo de marketing é alto e afeta diretamente a segurança e a inclusão.
Quando um ambiente de festa é promovido tendo o corpo feminino como o principal chamariz para homens, o recado implícito que se dá ao público masculino é o de que aquelas mulheres fazem parte da "experiência comprada". O resultado prático disso na pista é o aumento dos casos de assédio, a falta de respeito ao consentimento e a criação de um ambiente hostil.
Além disso, esse cenário sufoca o crescimento de mulheres DJs e produtoras. Em uma cena onde a imagem da mulher é constantemente empurrada para o papel de "musa do backstage", o reconhecimento do talento técnico feminino enfrenta barreiras ainda mais sólidas.
O Afro House e o Latin House são gêneros ricos, de raízes profundas e que merecem o topo das paradas mundiais. No entanto, o sucesso comercial não pode vir ao custo do retrocesso social.
No fim das contas, a cena eletrônica global tem diante de si uma ótima oportunidade para evoluir.
O caminho para um futuro mais profissional, seguro e igualitário depende de abrirmos os olhos para essas dinâmicas de marketing antigas, garantindo que a energia da pista seja voltada para o que realmente importa: a música e o respeito coletivo.





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