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A NOITE CURITIBANA ESTÁ MORRENDO?

O preço de tratar o entretenimento como desordem


Curitiba é conhecida por dois lados bem diferentes: ao mesmo tempo que todo mundo elogia a cidade por ser moderna e desenvolvida, a vida noturna sofre com uma pressão que parece aumentar a cada ano. 


Quando falamos de música eletrônica, o debate rapidamente sai do campo artístico e entra em uma zona cinzenta de preconceitos e burocracia. Mas é preciso dizer o óbvio: a música eletrônica é, antes de tudo, cultura, e o acesso a ela deveria ser um direito de todos.


O que se observa na capital é uma barreira cultural difícil de romper. Com um viés mais conservador, a cidade muitas vezes reduz a música eletrônica ao consumo de substâncias ilícitas. Esse olhar limitado gera uma barreira para a propagação do gênero. Em vez de ser tratada como uma manifestação artística que movimenta a economia criativa, a festa eletrônica é frequentemente lida sob um prisma negativo, um preconceito que causa uma regressão nítida na nossa cena local.


Não são poucos os produtores de eventos em Curitiba que relatam a mesma batalha: a dificuldade imensa de manter uma festa viva sem que a pressão constante da vizinhança ou rigorosidades operacionais inviabilizem o projeto. Onde deveria haver fomento e diálogo, muitas vezes encontramos apenas barreiras.


Essa dificuldade não se restringe apenas à música eletrônica; ela sufoca a noite curitibana como um todo. Hoje, para se conseguir um alvará ou manter um espaço aberto, o caminho é repleto de entraves técnicos que desafiam a cultura em sua essência. Muitos bares e baladas simplesmente não sobrevivem à complexidade de se manter um negócio de entretenimento na cidade.


Isso cria um filtro perigoso. Sem um apoio claro à diversidade de gêneros e à ocupação de espaços, a noite corre o risco de se tornar um território elitizado. A cultura não pode ser restrita a eventos de alto custo; ela precisa ocupar a rua, os centros independentes e os novos espaços que lutam para surgir.


Enquanto cidades como São Paulo e Florianópolis já entenderam que a rua é o maior palco democrático de uma capital, promovendo diversos eventos gratuitos de música eletrônica em praças e áreas públicas, Curitiba ainda tem um longo caminho a percorrer. Nessas cidades, o poder público atua como parceiro, ocupando o espaço urbano com arte e revitalizando regiões através da música. Por aqui, a ausência de eventos públicos desse porte é gritante, empurrando a cena para locais cada vez mais fechados.


O apoio à cultura deve ser amplo. A música eletrônica, assim como o jazz, o rock ou o samba, precisam ser entendidos como um ecossistema econômico e social. Ocupar a cidade com música é um ato de vitalidade e de saúde urbana.


Como artistas e produtores, precisamos reivindicar que a música eletrônica seja vista pelo que ela é: um espaço de acolhimento, de expressão artística e de encontro. Ao reduzir a vida noturna a uma questão de vigilância e controle, Curitiba acaba por silenciar sua própria identidade cultural. A noite curitibana não quer apenas sobreviver; ela tem o direito de existir.


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