O Fim da Construção: Onde foi parar a arte do Warm-up?
- Richard Marty

- 29 de jan.
- 2 min de leitura

Foto: acervo pessoal / divulgação
Você já chegou cedo a um club, ainda com o primeiro drink na mão, e sentiu que o DJ parecia estar tocando no horário de pico do Main Stage de um festival? Quem nunca sentiu que o primeiro artista da noite "pesou a mão" cedo demais, entregando drops explosivos quando a pista ainda estava ganhando corpo?
Se você já teve essa sensação de desconforto, você testemunhou a morte de uma das técnicas mais nobres da discotecagem: o warm-up.
As primeiras horas de uma festa são sagradas. É o momento da chegada, do reencontro com os amigos e da primeira conexão com o sistema de som. O papel do DJ nesse momento não é fazer ninguém pular, mas sim "preparar o terreno".
É uma fase de sedução sonora, onde a música deve ser hipnótica, progressiva e convidativa. Um bom warm-up é como uma preliminar: ele cria a tensão necessária, aumenta a expectativa e prepara o corpo e a mente para o grande clímax da noite. Sem ele, a noite perde o sentido e vira apenas uma sequência de barulho sem contexto.
Ser o DJ de warm-up exige algo raro hoje em dia: humildade. O objetivo não é mostrar que você tem os sons mais pesados no pen drive, mas demonstrar controle e leitura de pista. É saber que, se você entregar a energia às 23h, não haverá para onde subir às 02h da manhã.
Quando o warm-up é ignorado, a noite inteira sofre. O público chega ao horário do headliner já saturado sonoramente. O artista principal, por sua vez, encontra uma pista "queimada", onde o impacto da sua apresentação é diluído porque a energia já foi desperdiçada antes da hora.
Mas por que estamos perdendo isso? Vivemos na era do imediatismo. As redes sociais nos viciaram em respostas rápidas, dopamina instantânea e vídeos de 15 segundos que precisam começar pelo ápice. Essa "ansiedade por drops" transbordou das telas para as cabines.
Muitos DJs, pressionados pela necessidade de criar um Reels impactante ou pelo medo de não "impressionar" rápido, acabam se atropelando. Eles querem chegar ao topo da montanha sem subir a trilha. Essa pressa em querer o resultado para ontem faz com que ignorem a progressão natural da música, transformando o set em um amontoado de momentos de euforia que, por não terem sido construídos, acabam cansando o público precocemente.
No final das contas, a música eletrônica é sobre jornada, não sobre o destino final. Se perdermos a capacidade de apreciar a construção de uma noite, deixaremos de ir a festas para viver experiências e passaremos a ir apenas para consumir faixas isoladas.
Respeitar o warm-up é respeitar a pista, o headliner e, acima de tudo, a própria história da cultura clubber.




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