O RETORNO DO VINIL
- Guilherme Dezone

- 17 de mar.
- 2 min de leitura
Quantas vezes você já entrou em um bar ou clube e encontrou um DJ tocando vinil? Em alguns espaços, ele voltou a ganhar protagonismo. O disco começa a girar e o som toma conta do ambiente.
Para quem se acostumou com controladoras, CDJs e bibliotecas digitais praticamente infinitas, sua presença pode parecer incomum. Ainda assim, ele nunca desapareceu da cultura da música eletrônica. Nomes como Carl Cox e Sven Väth continuam a utilizar o formato, evidenciando sua permanência, ainda que hoje esteja mais associado a uma parcela nichada de DJs.
Nas décadas de 90 e início dos anos 2000, conseguir novas faixas exigia dedicação. Muitos viajavam para outras cidades em busca de lojas especializadas, como São Paulo, ou aproveitavam idas ao exterior para voltar com as bags cheias de discos. Cidades como Londres, Nova York e Berlim estavam entre os destinos onde encontravam as principais novidades.
Cada viagem, loja visitada e caixa garimpada fazia parte da construção da identidade sonora. O acesso limitado também influenciava a forma como essas faixas circulavam: muitas permaneciam restritas a DJs e clubes específicos. O novo surgia ali, sendo o clube, muitas vezes, o único espaço onde o público tinha contato em primeira mão com aquelas sonoridades.
Quem frequentava as noites acabava ouvindo sons que dificilmente apareceriam em outros contextos. Não existiam aplicativos que mostravam, em tempo real, o que estava sendo tocado; a descoberta acontecia na própria energia da pista.
Com o avanço das tecnologias, esse cenário se transformou, mas o nível de dedicação do artista apenas mudou de lógica. Hoje, é possível acessar milhares de músicas em poucos minutos, organizar bibliotecas extensas e preparar sets com rapidez. A circulação se tornou muito mais ampla e imediata.
Mesmo assim, o vinil manteve seu espaço. Tocar discos exige outro tipo de preparação e seleção: a quantidade disponível depende do que cabe na bolsa, e cada escolha feita antes de sair de casa interfere diretamente na jornada construída ao longo da noite.
Essa valorização do físico também se mantém viva em cenas locais. Aqui em Curitiba, por exemplo, nomes como Gromma, Schasko e Kaká Franco mostram como técnica, garimpo e feeling continuam impactando as pistas da cidade.
A arte da capa, o peso do disco e o manuseio na pickup também fazem parte da experiência. Para quem observa o DJ, esses elementos tornam o processo mais visível e tátil, ainda que a performance já seja perceptível mesmo em setups digitais.
Ao mesmo tempo, o vinil carrega uma história dentro da cultura eletrônica. Muitas referências que ajudaram a definir vertentes do house, techno e outras sonoridades se difundiram inicialmente por meio dele.
Ver os discos novamente em evidência não significa abandonar as ferramentas atuais. O que se observa é uma convivência entre diferentes formas de tocar, em que tecnologias distintas seguem sendo exploradas pelos artistas.
E enquanto o disco gira sob a luz baixa do clube, o vinil permanece como parte dessa trajetória construída por viagens, garimpos e coleções que ajudaram a levar novos sons até as pistas.




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