OS GURUS DA MÚSICA ELETRÔNICA E A VENDA DOS SONHOS
- Richard Marty

- 19 de ago.
- 2 min de leitura
Atualizado: 21 de ago.
Basta abrir as redes sociais por cinco minutos para ser impactado por um anúncio patrocinado: "Aprenda como assinar com grandes gravadoras em 30 dias", "A fórmula secreta para viver de música em 2026" ou "Como lotar sua agenda de gigs sem ter experiência". A promessa de um atalho milagroso para o topo virou um negócio lucrativo, mas a pergunta que quase ninguém faz é simples: quem são os "mentores" por trás dessas promessas?
O assunto veio à tona e acendeu um sinal vermelho entre os artistas que realmente constroem a história da nossa música. O DJ e produtor Leo Janeiro trouxe a provocação em suas redes sociais:
"Muita gente vendendo algo que não possuem para ganhar a sua grana. Dito isso, deem valor ao processo no dia a dia, caindo e levantando e sendo vocês!"
Na era da velocidade e dos resultados imediatos, a ideia de passar anos estudando síntese sonora, pesquisando repertório, construindo relacionamentos genuínos e tocando em pistas pequenas parece ultrapassada para os mais apressados. É exatamente nessa ansiedade que os "gurus" da cena encontram espaço.
Eles vendem uma embalagem reluzente: jargões de marketing digital, promessas de inserção em playlists, estratégias de tráfego pago e a promessa de conexões facilitadas com outros artistas ou produtores de eventos. Por trás da fachada, grande parte desses “especialistas” nunca esteve no comando de uma grande pista, nunca gerenciou o estresse de uma turnê nem construiu um catálogo autoral relevante.
E, mesmo nos casos em que esse mentor viveu tudo isso na pele, vale lembrar que não existe fórmula replicável: cada trajetória é única, cada artista tem sua própria história de vida e o que funcionou para um nem sempre servirá de atalho para o outro.
Construir uma carreira sólida na música eletrônica exige tempo. As frustrações, os sets para poucas pessoas, a recusa de gravadoras e as noites viradas no estúdio sem chegar ao resultado esperado fazem parte do percurso.
O problema se torna ainda mais grave quando olhamos para as cifras envolvidas. Não é raro encontrar mentores cobrando valores que chegam facilmente a R$ 10 mil por pacotes de acompanhamento. Em um mercado onde a grande maioria dos DJs iniciantes luta para conseguir cachês básicos e financiar o próprio equipamento, desembolsar uma quantia dessas por promessas vazias é um golpe duro na saúde financeira do artista. Trata-se de uma exploração aberta do sonho alheio, vendendo por preço de ouro um mapa do tesouro que simplesmente não existe
Quando um artista compra um "atalho", ele perde a oportunidade de desenvolver casca, repertório e identidade. O resultado é uma safra de novos produtores genéricos, que aplicam as mesmas receitas de bolo, usam os mesmos presets e não sustentam o próprio projeto no primeiro imprevisto do mercado real.
A tecnologia facilitou a produção e a distribuição musical, mas a pista de dança continua sendo um ambiente honesto. O carisma de cabine, a leitura de público e a profundidade de um repertório não se compram em um curso de marketing de 12 módulos.
O recado dos veteranos é claro: o único caminho sustentável é a dedicação ao processo diário. Acreditar no próprio projeto significa respeitar o próprio tempo de maturação, caindo, levantando e construindo uma história que seja verdadeiramente sua.






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