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QUANDO A CENA ELETRÔNICA DE CURITIBA GANHOU NOVAS FORMAS

há 4 dias
7 min de leitura

Quando falamos da cena eletrônica de Curitiba nos anos 2000, é difícil passar por esse período sem falar do Club Vibe. A casa aparece no fim da primeira parte desta história, inaugurada em 2001, em um momento em que as raves já haviam ampliado a escala da música eletrônica na cidade. Nos anos seguintes, a Vibe se tornaria um dos pontos de continuidade entre gerações, acompanhando mudanças de público, sonoridades e da própria noite curitibana.


Flyer da reabertura do Club Vibe, em 2010; Rolldabeetz no Club Vibe, em 2006; e público do clube, em 2005. Acervo Soundman Pako.


Dentro daquele cenário, a primeira Vibe ainda estava distante da estrutura que viria depois. Raul Aguilera, residente da casa naquele período, descreve uma pequena caixa preta, com poucas luzes, um sistema de som suspenso e uma cabine onde duas ou três pessoas já ficavam apertadas. Tocou ali até aproximadamente 2007 e associa aquela fase a uma programação de house underground e techno, além do minimal que ganhou força nos anos seguintes. Para ele, havia uma continuidade do que as raves haviam colocado em movimento, só que concentrada em uma escala menor.


Pako também foi residente da Vibe em diferentes momentos e guarda daquele início uma imagem menos técnica. Em um dos cantos havia uma cortina vermelha, parte de um ambiente que ele define como “o inferninho que a gente adorava”. Depois vieram reformas, mudanças na iluminação e um público que se renovou várias vezes. A casa ampliou sua projeção para além de Curitiba e, ao longo de sua trajetória, recebeu artistas internacionais, nomes brasileiros e DJs locais, consolidando-se como uma das referências da música eletrônica no âmbito internacional.


Essa permanência no mesmo endereço ajuda a ligar momentos que poderiam parecer distantes. A Vibe nasceu no começo dos anos 2000 e continuou funcionando enquanto a maneira de produzir, divulgar e consumir a música eletrônica mudava ao seu redor. Ao mesmo tempo, outras experiências mostravam que esse período não se construía apenas dentro da pista principal.


Nos festivais e raves, por exemplo, os chill outs criavam uma dinâmica paralela. Eram ambientes onde o público podia sentar, conversar, comer e ouvir uma programação menos acelerada. Almofadas, pequenas mesas e espaços de descanso conviviam com sonoridades como dub e trip-hop, oferecendo uma pausa antes do retorno à pista. Foi nesse contexto que Schasko começou a se aproximar da discotecagem.


O interesse pelo que ouvia nesses ambientes levou aos primeiros toca-discos usados e à busca por discos em sebos, ainda de maneira bastante experimental. Depois vieram os minidiscs, que permitiam gravar músicas e levá-las de um lugar para outro. Em uma dessas primeiras experiências como DJ, Schasko chegou ao chill out com cerca de dez discos e precisou construir o set com o que tinha.


Schasko no chill out da festa Union, em Curitiba, e flyer do evento. Início dos anos 2000, entre 2001 e 2003, sem data confirmada. Acervo Schasko.

Espaço chill out da primeira XXXperience em Curitiba, em 1999. Acervo Soundman Pako.


Enquanto Schasko encontrava na discotecagem um caminho dentro daqueles festivais, Haustuff se aproximava cada vez mais da produção musical. O aprendizado acontecia acompanhando quem já trabalhava com softwares e equipamentos, observando os processos até começar a desenvolver suas músicas. Parte dessa movimentação encontrou um lugar pouco convencional perto da Praça Santos Andrade, onde um antigo cofre do Banco do Brasil passou a receber festas.


Ali, os equipamentos eram simples, com decks Denon e um mixer Behringer de dois canais. O interior escuro ganhava outra aparência com luz negra, fios e intervenções que mudavam de uma edição para outra. Produtores também começaram a levar suas músicas e apresentações ao vivo para aquele espaço, aproximando criação e pista dentro do mesmo ambiente.


Ao rever fotografias daquele período durante a entrevista, Haustuff resume como as coisas funcionavam. “A gente tinha que fazer tudo.” A frase vem acompanhada das tarefas. Fazer decoração, cuidar do bar e resolver diferentes partes da produção estavam entre elas. Quem estava envolvido com a música também ajudava a construir as condições para que a festa acontecesse.


Registros das festas no antigo cofre do Banco do Brasil, em Curitiba. Acervo Haustuff.


Os chill outs, enquanto isso, também já estavam mudando. Schasko situa por volta de 2006 e 2007 a entrada de big beat, breakbeat, house e outras sonoridades mais intensas. Em parte dos festivais, o espaço inicialmente voltado ao descanso foi assumindo outra dinâmica e passou a se aproximar do formato de uma pista alternativa.


Em 2009, outro clube entrou nessa história. O Danghai Club abriu em uma Curitiba que já reunia uma quantidade muito maior de festas, festivais, DJs, produtores e projetos ligados à música eletrônica. A cidade havia multiplicado seus caminhos desde os anos 1990, e o Danghai passou a fazer parte dessa configuração no final dos anos 2000. 


Na trajetória de Haustuff, o crescimento da produção começava a exigir mais espaço. Ele montou um estúdio na Rua Gutemberg, no porão de uma casa que tinha um restaurante no andar de cima. Ao meio-dia, o som precisava parar para não interferir no horário de almoço. Fora desse intervalo, a procura aumentou. Haustuff conta que chegou a dar aulas das dez da manhã às dez da noite, enquanto alguns alunos continuavam utilizando os equipamentos durante a madrugada. Em determinado momento, o estúdio praticamente não parava.


A rotina levou à ideia de dividir uma casa maior, onde diferentes produtores pudessem trabalhar. Eles já estavam fazendo música, mas encontrar um caminho para lançá-la continuava sendo uma dificuldade. Foi nesse contexto que surgiu, em 2011, a Radiola Records, criada por Haustuff e Albuquerque. 


Registro da Radiola TV, em Curitiba. Fonte: Instagram da Radiola.
Registro da Radiola TV, em Curitiba. Fonte: Instagram da Radiola.

O nome aproveitava a Radiola Underground, comunidade que já existia no Orkut e reunia pessoas interessadas em música eletrônica. A internet começava a ocupar um papel maior na articulação desses projetos, enquanto os encontros presenciais continuavam acontecendo nos estúdios e nas festas.


A Radiola rapidamente cresceu para além da função de gravadora. Em uma casa no Água Verde, cinco estúdios funcionavam ao mesmo tempo, reunindo produtores musicais, VJs e designers, além de uma frente dedicada à produção de vídeo. Haustuff chama aquela organização de “unidade colaborativa” e apresenta a experiência como o primeiro coworking dedicado à música eletrônica do mundo. Música, identidade visual e conteúdo podiam ser desenvolvidos dentro da mesma casa, com diferentes profissionais trabalhando próximos uns dos outros.


As festas realizadas ali começaram como uma maneira de ajudar a custear o aluguel, mas acabaram trazendo outra dinâmica para a casa. Com as transmissões de sets surgiu a Radiola TV, que convidava artistas em passagem por Curitiba para tocar. Haustuff cita uma segunda-feira em que aproximadamente 300 pessoas ocuparam o espaço. Depois da mudança para Campo Comprido, fala de encontros que chegaram a cerca de 700 participantes, com a casa tomada pelo público enquanto DJs de fora também passavam por ali.


As viagens de Haustuff ampliavam ao mesmo tempo essa rede para fora do Brasil. Em Amsterdã, ele conheceu Honey Dijon, e o contato abriu caminho para trazê-la posteriormente a Curitiba. Em 2018, a artista veio à cidade para uma apresentação na Usina 5. Quando volta àquela escolha durante a entrevista, Haustuff resume a noite de maneira direta. “Essa da Honey Dijon a gente acertou a mão sinistramente.”


Honey Dijon na Usina 5, em Curitiba, em 2018. Fonte: Instagram da Radiola.
Honey Dijon na Usina 5, em Curitiba, em 2018. Fonte: Instagram da Radiola.

Foi também nesse período que outra experiência começou a tomar forma. Durante suas viagens pela Europa, Haustuff acompanhava festas realizadas em galpões e absorvia parte daquela lógica. A Inbox surgiu primeiro como uma sequência de eventos temporários, em que gerador, banheiros químicos, som e outras partes da estrutura precisavam ser montados a cada edição.


Quem queria ir à Inbox nem sempre sabia com antecedência onde a festa aconteceria. O endereço chegava por e-mail perto da abertura. Haustuff conta que o disparo acontecia por volta das onze da noite e que uma das primeiras edições já tinha cerca de 400 pessoas esperando para entrar. O meio de comunicação havia mudado, mas a expectativa de descobrir onde a festa aconteceria continuava fazendo parte daquela noite. 


Em 2019, a Inbox passou a funcionar como clube em uma antiga fábrica do Café Damasco. A referência aos galpões europeus encontrava ali uma arquitetura industrial que conversava com o projeto. O sound system foi escolhido para a casa e a sala recebeu tratamento acústico para definir como aquela pista deveria soar. Haustuff fala ainda da criação de uma carta de drinks e de um público que não chegava apenas pela programação musical, mas acabava incorporado à noite. Durante o período em que funcionou, a Inbox reuniu uma movimentação intensa e se firmou como um dos espaços marcantes daquela fase da cena curitibana.


Registro do Clube Inbox, em Curitiba. Foto: ZOOE


O caminho que passa pelo cofre, pela Radiola e pela Inbox não forma uma sequência em que uma experiência termina para que outra comece. Durante boa parte desse período, produzir música, organizar festas, transmitir sets, trabalhar com artistas e ocupar diferentes lugares eram atividades que se cruzavam. Muitos dos projetos surgiram justamente porque as pessoas envolvidas precisavam criar estruturas que ainda não estavam prontas.


Décadas depois dos primeiros lugares citados nesta história, Curitiba chega a uma cena muito mais diversa. Há uma variedade de festas, DJs, coletivos e sonoridades ocupando a cidade ao longo de uma mesma semana, sem que toda essa movimentação dependa de um único endereço. Ao mesmo tempo, algumas ideias do passado continuam reaparecendo em novos contextos.


Há festas atuais que, por exemplo, escolhem revelar sua localização somente no dia do evento. Hoje o endereço pode chegar pelo celular em segundos, mas a decisão de preservar parte do mistério antes da chegada à pista encontra referências em experiências como as festas que antecederam a Inbox. Espaços improváveis também continuam sendo ocupados, assim como novos grupos seguem criando eventos, selos e projetos a partir das ferramentas disponíveis em seu próprio tempo.


Isso não significa repetir aquilo que existia antes. A quantidade de música disponível, a velocidade da informação e a própria dimensão da cena são outras. O que aconteceu desde os anos 1980 serviu como base para que novas gerações encontrassem mais caminhos para produzir, tocar, organizar e viver a música eletrônica em Curitiba.


Ao longo dessas duas partes, alguns detalhes acabam funcionando quase como marcas dessa passagem do tempo. O Época, o sistema de som da Legends, as horas de set no Circus, as raves em chácaras, a primeira Vibe, os chill outs, um cofre transformado com luz negra, cinco estúdios funcionando dentro da mesma casa, transmissões que reuniam centenas de pessoas e uma antiga fábrica convertida em pista pertencem a momentos diferentes, mas estão ligados pela mesma história.


Depois de ouvir Pako, Raul Aguilera, Haustuff e Schasko, a música eletrônica curitibana aparece menos como uma sequência de datas e mais como uma sequência de lugares, encontros e iniciativas que foram abrindo caminho umas para as outras. Alguns continuam no mapa. Outros permanecem apenas na memória de quem esteve lá.


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