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QUANDO CURITIBA ENCONTROU A MÚSICA ELETRÔNICA

7 de out.
6 min de leitura

Contar a história da música eletrônica em Curitiba exige voltar a um período em que a própria ideia de uma cena organizada ainda não existia da forma como conhecemos hoje. Não havia streaming, redes sociais ou acesso imediato aos lançamentos de artistas do mundo inteiro. A música circulava por discos, fitas gravadas, programas de rádio, viagens, lojas especializadas e, principalmente, pela noite. Para conhecer determinados sons, era preciso saber onde eles estavam sendo tocados.


Depois de conversar com Soundman Pako, Raul Aguilera, Haustuff e Schasko, percebo que procurar um único ponto de partida reduziria uma história construída por caminhos diferentes. Algumas memórias começam na noite, outras passam pelo rap, pelo skate ou pelas primeiras raves. As datas nem sempre aparecem com a mesma precisão, mas certos lugares voltam em diferentes entrevistas e ajudam a ligar uma geração à outra.


Um desses lugares é o Época, clube inaugurado na década de 1980 e que se tornaria uma das principais referências da noite curitibana daquele período. Quando pergunto a Pako sobre os primeiros movimentos da música eletrônica em Curitiba, é para essa casa que ele retorna. Voltado principalmente ao público gay, o clube também recebia pessoas de outros grupos atraídas por uma programação difícil de encontrar em outros espaços. Pako frequentava o local antes mesmo de imaginar que se tornaria DJ e é direto ao falar de sua importância. “A cena em Curitiba de música eletrônica era o Época.” Para ele, era ali que estava o “som de ponta” da cidade, com uma programação marcada por house e garage com vocal.


Raul Aguilera também coloca o Época entre as primeiras referências de sua relação com a noite curitibana. Ele conheceu a casa no início de 1993, antes de se mudar definitivamente para Curitiba no ano seguinte, e diz que, naquele momento, era o único clube que conhecia na cidade tocando música eletrônica em 4/4 durante toda a noite. Aguilera nunca chegou a tocar ali, frequentou o espaço como público e destaca também sua longevidade. Segundo ele, o Época abriu por volta de 1983 e permaneceu em atividade até 1995.


O Circus também ocupou uma posição central nesse período e foi ali que a trajetória de Pako começou a se aproximar de forma mais intensa da música eletrônica. Fundado entre 1990 e 1991, o clube aparece antes da Legends nessa cronologia. Vindo do rap, Pako passou a experimentar novos sons durante sets com uma duração difícil de imaginar dentro da dinâmica atual das pistas. “Eu começava às 23h no Circus, saía às 7 horas da manhã.” Depois das três ou quatro da madrugada, começou a inserir house e techno com maior frequência e observar como a pista reagia. Pako fala ainda de skatistas, punks, rappers e clubbers dividindo a mesma noite e afirma que, naquele período, “as pessoas se misturavam muito melhor”.



Foto: Público Circus / Acervo Soundman Pako
Foto: Público Circus / Acervo Soundman Pako

Em 1993, a Legends passou a fazer parte desse cenário. Fundada por Igor Mattar, a casa ficou especialmente ligada à house music. Quando Pako fala sobre a Legends, um detalhe que aparece antes mesmo da proposta sonora é o sistema de som, definido por ele como um “sound system invejável”. Na entrevista de Aguilera, feita separadamente, o mesmo assunto volta. Ele descreve uma caixa preta equipada com quatro cornetas e chama o sistema pensado por Igor de “absurdo”.



Foto: Legends / Acervo Raul Aguilera


Os dois clubes desenvolveram propostas diferentes. Pako conta que a Legends tinha uma presença maior de house e garage, enquanto o Circus seguia por um caminho mais underground, ligado principalmente ao techno. Isso não impedia a circulação pelas duas casas. Ele próprio também tocava na Legends, e DJs e frequentadores transitavam por diferentes noites. Para Pako, havia menos preocupação em separar quem vinha de qual grupo e mais disposição para simplesmente estar ali, dançar e viver a música.


Durante a segunda metade dos anos 1990, outras casas passaram a ocupar a noite curitibana. Aguilera começou a tocar na Queen Mix Club no fim de 1995, em uma casa marcada pela presença de drag queens e pela comunidade LGBTQIAPN+. A Rave Club, no Batel, trabalhava com ambientes diferentes dentro do mesmo espaço. Em 1996, o Mercado Mundo Mix também entrou nessa história, aproximando música, moda, tatuagem, piercing e a estética clubber que ganhava força naquele período.


A divulgação dessas noites também acontecia de outra forma. Quando pergunto a Pako como as festas eram divulgadas antes das redes sociais, ele resume. “Era só papel.” Nos anos 1990, flyers eram distribuídos em bares e deixados em lojas de roupas e acessórios. Como havia menos opções de festas e espaços dedicados à música eletrônica, esses materiais ajudavam a indicar onde a próxima noite aconteceria.


Flyer 1ª XXXPerience Curitiba - 1999 . Acervo de Soundman Pako
Flyer 1ª XXXPerience Curitiba - 1999 . Acervo de Soundman Pako


Flyer Legends. Acervo de Raul Aguilera.
Flyer Legends. Acervo de Raul Aguilera.

E não era apenas a informação sobre as festas que precisava circular fisicamente. A própria música também era mais difícil de encontrar. Haustuff e Schasko citam a Doctor Disco, na Rua do Rosário, uma loja especializada em DJs quando o vinil ainda era o principal suporte da discotecagem. Conseguir determinado disco dependia do que chegava a Curitiba e, em alguns casos, de viajar para comprá-lo. Sets eram gravados em fita cassete e escutados depois no Walkman, inclusive para conferir as transições. A chegada dos CDs e, mais tarde, de serviços como Napster e Galaxy começaria a transformar essa pesquisa.


Esse acesso limitado também ajuda a entender por que essas casas tinham tanto peso. Muitas vezes, ouvir uma música nova significava estar exatamente no lugar onde aquele DJ tocaria. O que hoje pode ser encontrado em poucos segundos dependia de discos, fitas, lojas, viagens e das próprias pistas.



Foto: Flyer L&M Music / Acervo Raul Aguilera
Foto: Flyer L&M Music / Acervo Raul Aguilera

Mas a história não ficaria restrita às pistas. Algumas experiências de outra escala já haviam aparecido antes e antecipavam o formato que ganharia força nos anos seguintes. Em 1993, Aguilera saiu de Maringá com amigos depois de descobrir pela televisão que a L&M Music passaria por Curitiba. O evento fazia parte de uma sequência realizada também em São Paulo e Porto Alegre e reuniu nomes como Altern8, Moby, Mark Kamins e Mau Mau. Para Aguilera, aquela foi uma das primeiras experiências da cidade com uma estrutura próxima das raves que se multiplicariam posteriormente.




No final da década, a música eletrônica começou a ocupar espaços cada vez maiores e a sair dos endereços fixos da noite. Chácaras, galpões e áreas afastadas passaram a receber festas que atravessavam a madrugada e seguiam durante o dia. Pako coloca Jeje entre os responsáveis por ampliar esse movimento e associa a ele a chegada a Curitiba de eventos que já movimentavam São Paulo, incluindo a XXXperience. Posteriormente, a Tribaltech também faria parte dessa expansão. “A cidade deve muito a ele nessa parte eletrônica”, afirma Pako ao falar da atuação de Jeje naquele período.


Foto: Primeira XXXperience Curitiba - 1999 / Acervo Soundman Pako


Ir a essas festas, no entanto, envolvia uma logística bem diferente da atual. Haustuff e Schasko contam que, quando uma rave acontecia em uma chácara, era comum percorrer o trajeto antes, anotar quilometragem, placas, lombadas e entradas e depois preparar um mapa que seria xerocado e distribuído para o público. Quando as referências deixavam de fazer sentido, eles paravam o carro, desligavam o motor e tentavam escutar de onde vinha a música. “É pra lá, é pra lá”, lembra Haustuff. O grave ao longe ajudava a indicar a direção, e o caminho continuava a partir dali.


Essa lembrança ajuda a dimensionar a mudança tecnológica. Hoje, uma localização enviada pelo celular abre uma rota em poucos segundos. Naquela época, chegar à festa podia depender de uma folha xerocada e, em último caso, do próprio som vindo de algum ponto da estrada.

Ao falar dos anos 2000, Pako utiliza a palavra “avalanche” para descrever o que estava acontecendo. Novos núcleos começaram a surgir, as festas se multiplicaram e atrações de fora passaram a aparecer com mais frequência. Segundo ele, Curitiba chegou a ser tratada naquele período como uma espécie de capital brasileira da música eletrônica.


Flyer Club Vibe 2001. Acervo de Raul Aguilera.
Flyer Club Vibe 2001. Acervo de Raul Aguilera.

Foi também nessa virada que surgiu o Club Vibe. Inaugurada em 2001, a casa permanece em atividade e já recebeu diferentes gerações do público curitibano. Aguilera associa sua abertura à continuidade de uma movimentação que vinha das raves e descreve uma estrutura ainda simples, com poucas luzes, um sistema de som suspenso e uma cabine pequena.


Em poucos anos, a música eletrônica em Curitiba havia encontrado espaço em casas noturnas, grandes eventos e chácaras que às vezes precisavam ser localizadas pelo som. A abertura da Vibe ajuda a mostrar o quanto a noite curitibana havia se transformado ao longo das décadas anteriores.


Nos anos seguintes, a pista permaneceu como ponto de encontro, mas passou a dividir espaço com outras formas de fazer essa cena acontecer. Estúdios, selos, transmissões e festas em lugares improváveis começaram a fazer parte desse movimento.


É a partir daí que a segunda parte desta história continua.


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