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ANINHA: A trajetória que ajudou a estruturar a música eletrônica no Brasil

Com mais de duas décadas dedicadas à cultura de pista, Aninha construiu uma trajetória que atravessa diferentes fases da música eletrônica no Brasil. DJ, produtora, empresária e uma das vozes mais ativas da comunidade LGBTQIAPN+ no underground brasileiro, ela não apenas acompanhou a evolução da cena no país, como também ajudou a estruturá-la. Reconhecida como uma das principais DJs do Brasil, sua trajetória é um verdadeiro manifesto de resistência.


Natural de Santa Catarina e radicada em Curitiba, a artista construiu uma carreira que se estende de norte a sul do país, deixando sua marca sonora em algumas das cabines mais respeitadas da cena eletrônica brasileira. Ao longo dos anos, consolidou um protagonismo sustentado por uma profunda bagagem musical, pela vivência nas pistas e pela elegância inconfundível com que conduz seus sets, mantendo sempre um respeito inegociável à própria essência.



Aninha @Surreal Park 2024
Aninha @Surreal Park 2024


O Chamado da Cabine e a Identidade Orgânica


Para entender como Aninha construiu uma identidade tão sólida e autêntica, é preciso voltar aos bastidores do final da década de 90. Trabalhando como promoter na noite de Porto Belo, em Santa Catarina — primeiro ajudando a promover um clube local e depois no Café Pinhão — ela já nutria um fascínio genuíno pelos DJs. A curiosidade sobre como aqueles artistas criavam transições tão precisas a levou naturalmente aos toca-discos.


A paixão pela música rapidamente se transformou em compromisso profissional, e o início já demonstrava sua personalidade.


Então ali, a partir de 2001, eu comecei já a me arriscar, aprender a tocar. Eu nem imaginava, porque a intenção era aprender a tocar e tocar para os meus amigos. Tentar replicar as coisas que a gente ouvia nas festas.
Foto: Acervo pessoal - Balneário Camboriú, SC - 2001
Foto: Acervo pessoal - Balneário Camboriú, SC - 2001

O que começou como um desejo de reproduzir a energia das pistas rapidamente ganhou contornos mais sérios. Já em 2002, ela integrava o casting de uma agência.


Naquele início dos anos 2000, enquanto muitas pistas eram dominadas pela intensidade do Techno acelerado a 145 BPM, Aninha apostava na sutileza e na profundidade do Deep House. Mantendo coerência musical desde seus primeiros passos na cena, ela mostrou que a elegância na condução do som seria uma de suas marcas registradas.


Essa identidade foi construída passo a passo, longe de fórmulas rápidas ou estratégias fabricadas. Ao longo de mais de duas décadas de carreira, Aninha desenvolveu uma relação profunda com a música, guiada muito mais por vivências pessoais, referências familiares e pelas experiências acumuladas dentro das pistas.


Segundo a artista, sua trajetória contrasta com uma lógica cada vez mais presente na indústria musical contemporânea, em que muitos projetos são estruturados primeiro como produto — impulsionados por números, seguidores e estratégias de mercado — antes mesmo que uma identidade artística se consolide.


No caso dela, o caminho foi outro: uma construção gradual, sustentada pelo tempo, pela pesquisa musical e pela convivência direta com a cultura de pista. O crescimento veio sem pressa, permitindo que sua identidade sonora se formasse de maneira sólida ao longo dos anos.


A minha identidade é totalmente orgânica, dentro de bases de experiência familiar e da vida. Essa foi a minha construção para sustentar toda essa minha carreira. Não é linear. Tem um crescimento, mas ele não é com uma linha tão intensa. Vai indo devagar, aos poucos, e mantendo assim.


A "Rainha do Warm Up" e a Relação de Troca



Aninha @ Clube Vibe (2004)
Aninha @ Clube Vibe (2004)

Falar da carreira de Aninha é cruzar pelas portas de alguns dos clubes mais importantes do Brasil e acompanhar uma trajetória que também ultrapassou fronteiras. Ao longo dos anos, ela se tornou uma figura central no Club Vibe, em Curitiba, onde assumiu a residência em 2003 e encontrou um espaço que ampliou sua relação com a pista. Foi ali, abrindo pistas e tocando por longas horas, que consolidou parte de sua bagagem técnica e musical.



Outro capítulo decisivo dessa história aconteceu no Warung Beach Club (2005), em Itajaí, onde manteve uma residência por mais de uma década. O clube se tornaria um verdadeiro ponto de virada em sua carreira. À medida que o Warung ganhava projeção internacional e se consolidava como um dos templos da música eletrônica mundial, o nome de Aninha também se projetava junto, levando sua música para diferentes cidades e países. Ao longo desse período, ela também integrou o time de residentes do D-Edge e dos projetos ligados ao grupo.


Criando uma conexão emocional profunda com a pista, sua música chegou a diferentes países e cidades importantes da cultura eletrônica, como Portugal, Berlim e Ibiza, além de grandes festivais internacionais, entre eles o Time Warp.


Foi justamente na arte de construir a energia da noite do zero, faixa a faixa, guiando o público com sensibilidade e leitura de pista, que ela conquistou o respeitado título de “Rainha do Warm Up”, uma função que exige menos ego e mais percepção do ambiente.


Em vez de seguir roteiros pré-fabricados, Aninha estabeleceu com os clubes uma relação de confiança construída ao longo dos anos.


Eu tocava por muitas horas, abrindo pista para gringo. Os clubes deram todo o suporte e tecnologia para que eu pudesse ajudar a construir a identidade musical de cada um deles. É uma troca: a confiança de quem faz a noite girar e a sua identidade sonora.

O amadurecimento técnico veio dessas longas horas de set. Ainda assim, a bússola musical sempre foi exclusivamente dela.



A Força da Mulher no Comando: Representatividade e a "Guerra Silenciosa"


Se a pista de dança é, por essência, um lugar de libertação e pluralidade, os bastidores da indústria frequentemente escondem barreiras invisíveis. Em um mercado historicamente dominado por figuras masculinas, dos line-ups aos cargos de direção, a ascensão das mulheres sempre exigiu uma resiliência adicional.


Aninha assumiu o protagonismo dessa mudança. Sua atuação ultrapassou a cabine e se expandiu para diferentes frentes da indústria. Como sócia-fundadora de agências de management e booking como a 24bit Management e a Alliance Artists, contribuiu diretamente para o desenvolvimento da carreira de diversos profissionais. Essa visão também se refletiu em sua atuação como label owner. À frente de projetos como a AIA Records e a Fulana Records, ajudou a impulsionar novos artistas e produções nacionais.


Com essa atuação múltipla, consolidou-se não apenas como DJ e produtora musical, mas também como uma agente ativa no desenvolvimento da cena eletrônica brasileira.

Como mulher e parte da comunidade LGBTQIAPN+, Aninha conhece de perto as complexidades dessa estrutura.


Ser mulher, em qualquer estado, a gente tem que se provar mais. E dentro de recortes, tem amigas minhas trans e pretas que têm que se provar muito mais do que eu.

Se no passado ela confessa ter deixado passar episódios de machismo e homofobia, hoje sua postura é diferente.


A gente vive numa guerra silenciosa. Hoje eu tô mais bocuda, falo mais, e fico muito feliz com o impacto que isso gera na comunidade.

Ver uma artista com anos de carreira ocupando espaços de poder e sendo respeitada reforça um movimento fundamental para que a cultura underground se torne, de fato, um espaço seguro e diverso.


Assista ao set da Aninha @ Warung Brazil w/ Richie Hawtin - Feb26

A Alma de Pesquisadora e a Regeneração do Underground


Em um mercado que frequentemente pressiona artistas a produzirem constantemente, Aninha deixa claro que seu principal laboratório continua sendo a pista de dança.


Eu me expresso muito mais tocando do que produzindo.


Autodeclarada uma DJ pesquisadora, ela mantém uma relação quase artesanal com a música. Horas de pesquisa fazem parte da rotina: garimpar selos novos, descobrir produtores desconhecidos e explorar sonoridades fora do radar comercial são práticas constantes do seu processo criativo. Como ela mesma descreve, não gosta de fazer o “feijão com arroz” da pesquisa musical, prefere dedicar seu tempo para ouvir, filtrar e organizar referências.


Na cabine, a entrega é tão natural que saborear um cafezinho durante os sets acabou se tornando uma de suas marcas registradas.


Essa relação íntima com a música também permite que ela observe com atenção as transformações no comportamento do público ao longo dos anos.


Eu curtia muito mais como as pessoas dançavam. Elas estavam prestando atenção no som, deixando a música entrar.

Para Aninha, parte desta mudança está ligada às transformações recentes provocadas pela hiper presença das redes sociais e pelo impacto do período pós-pandemia na forma como o público se relaciona com a diversão. Muitas vezes, segundo ela, a experiência da pista acaba sendo mediada pela necessidade de registrar o momento.


Ainda assim, a veterana não encara o momento atual com pessimismo.


Não vejo como algo que esteja acabando. Na verdade, ele está se regenerando.

Para ela, essa capacidade de renovação sempre fez parte da própria natureza da cultura underground.


A minha trajetória é muito baseada nessa resiliência da cena underground. Vem moda, vai moda, e a gente continua aqui.

Depois de mais de duas décadas dentro da cabine, o conselho que ela deixa para a nova geração resume bem a própria trajetória.


Trabalhe com a sua verdade, do seu jeito e no seu tempo. Tente diminuir as barreiras para soltar a sua arte com o que você tem nas mãos. A coisa mais importante é se ouvir.

No fim das contas, é exatamente aí que mora a verdadeira resistência do underground: na coragem de continuar fazendo as coisas do próprio jeito, no próprio tempo e com a própria verdade.



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