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HNGT

Texto: Guilherme Dezone | Entrevista: Paulo Oliveira

Antes de começar a produzir, lançar suas próprias músicas e levar seu trabalho para outros países, Ricardo Hingst encontrou nas pistas o interesse que anos depois daria forma ao HNGT. Natural de Brusque, em Santa Catarina, ele começou a frequentar o Warung Beach Club em 2018, inicialmente muito mais interessado pelo rolê do que pela música. A convivência com aquele ambiente mudou gradualmente sua relação com a música eletrônica e despertou a vontade de aprender a tocar.


Uma noite, em especial, definiu o caminho que seguiria dali em diante. No dia 20 de janeiro de 2020, Ricardo assistiu aos sets de Alex Stein e Enrico Sangiuliano no Inside do Warung. A experiência marcou o momento em que a curiosidade dos anos anteriores encontrou uma direção profissional.

“Eu comecei a ir em 2018, mas era muito mais pelo rolê em si que pela música no geral, eu fui pegando gosto e criando o desejo de aprender a tocar, mas a noite que realmente fez eu ter o chamado do que eu queria fazer da minha vida foi no dia 20 de Janeiro de 2020, quando vi Alex Stein e Enrico Sangiuliano no inside do Warung, foi com certeza absoluta uma das noites mais marcantes da minha vida, os sets foram os mais marcantes 100%, e aquele dia eu tive claro na minha cabeça o que eu queria ser e fazer.”

Sua carreira começou oficialmente entre o final de 2019 e o início de 2020. É nesse período que a vontade de Ricardo de fazer música começa a ganhar forma também como projeto artístico. Nos anos seguintes, HNGT se desenvolve junto a uma compreensão mais precisa dos próprios gostos e da maneira como gostaria de expressá-los musicalmente. Essa mudança aparece hoje na capacidade que o artista reconhece ter desenvolvido para traduzir com maior clareza o que pretende passar com seu som.

O Techno continua sendo a raiz desse trabalho, mas a produção abriu espaço para elementos de Psytrance, grooves e outras sonoridades que despertam seu interesse. No estúdio, as ideias surgem sem uma preocupação constante em determinar onde cada faixa deve se encaixar. A experimentação acompanha um artista que também evita permanecer por muito tempo repetindo as mesmas escolhas.

“Eu tenho me descoberto bastante em relação ao som, eu acho que essencialmente o techno é a raiz da música que eu faço, mas gosto de não pensar tanto e não me limitar na hora de produzir, vou buscando e criando sons que me agradam, sem preocupar se parece isso ou aquilo.. então meio que é natural sim! Acho que é uma constante busca, a gente às vezes pode até pensar tipo ‘é isso, esse é meu som’, mas pra mim ficar fazendo coisas muito parecidas também enjoa, então gosto de estar trabalhando em coisas diferentes.”

Esse entendimento trouxe outra relação com a rotina de lançamentos. Deadlines, gravadoras e a expectativa pelo próximo passo já exerceram uma pressão maior sobre seu processo criativo. Em 2026, a experiência acumulada permitiu que HNGT deslocasse parte dessa atenção para o próprio processo, diminuindo o peso colocado sobre aquilo que cada lançamento deveria representar para sua carreira.

“Sim! tem sido mais tranquilo, eu sinto que por mais que saiba a importância de lançar músicas e assinar em tal ou tal gravadora, naturalmente com o tempo e experiência a pressão por isso vai diminuindo, e fica muito mais leve criar.. A gente como produtor põe muita expectativa e nossa própria felicidade em ‘vou ficar suave quando lançar lá, ou quando fazer tal coisa’ e no fim a única coisa que importa é tentar aproveitar e prestar atenção no processo, o resto vai acontecendo.”

É nesse momento que chega “The Reason”, lançamento desta sexta-feira, 21 de agosto, pela Turbo. A música dá sequência a um ano que também aproximou seu trabalho de uma referência importante desde o início da carreira, Victor Ruiz.

Victor faz parte de uma geração de produtores brasileiros que HNGT acompanhava ao lado de nomes como Alex Stein, Wehbba e ANNA. Durante a pandemia, as masterclasses lançadas por artistas que já faziam parte de suas referências contribuíram para seu aprendizado na produção. O desenvolvimento iniciado naquele período ganhou novos capítulos em 2026, quando HNGT e Victor Ruiz dividiram a produção de “A New Day”.

A faixa seguiu uma direção mais melódica em relação ao que os dois vinham produzindo recentemente. A escolha surgiu naturalmente durante o processo e levou a música até Tiësto, que passou a apoiá-la em seus sets.

“Então poder estar trocando ideias, fazendo música, dividindo line up com eles é muito gratificante e realização de um sonho com certeza. O lançamento de ‘A New Day’ foi irado, ela é uma faixa bem mais melódica, diferente do que eu e ele vínhamos fazendo recentemente, e isso que foi legal, o fato de ter só fluído assim e ter dado muito certo! Recebemos suporte do Tiesto que era algo que eu nunca imaginei na minha vida.”

A relação artística com Victor Ruiz ganhou outro capítulo em “Scorpio”. HNGT acompanha a faixa desde 2018 e a tocou inúmeras vezes ao longo dos anos. Quando surgiu a possibilidade de desenvolver sua própria versão, encontrou a abertura para trabalhar sobre uma música que já carregava uma história dentro de seus sets.

“A ‘Scorpio’ é uma das minhas faixas favoritas do Victor desde que conheci a música dele em 2018, toquei ela infinitas vezes, e quando surgiu a ideia de tentar fazer minha versão, ele abraçou e deu no que deu, acho que foi um dos, se não o lançamento mais importante da minha carreira! e spoiler: tem mais Victor Ruiz e HNGT em Novembro…”

Enquanto as produções criavam novas conexões, seu trabalho também começava a circular por outros países. HNGT já levou sua música para diferentes partes do mundo e recentemente esteve na Argentina e na África do Sul. Tocar para públicos de diferentes continentes trouxe experiências que ele associa diretamente ao próprio desenvolvimento como DJ e produtor, além de um significado pessoal difícil de separar da trajetória profissional.

“Foi insano, todas as vezes que toquei em outros países foram um sentimento de sonho realizado e felicidade imensurável, a experiência de tocar para diferentes públicos em diferentes continentes somou muito para minha evolução como DJ e produtor também.”

Parte dessas oportunidades começou longe das pistas, no contato estabelecido por meio das próprias músicas. HNGT enviava promos para artistas de vários países e não direcionava sua atenção apenas aos nomes que ocupavam as maiores posições do mercado. Também procurava produtores que estavam vivendo etapas semelhantes da carreira. As trocas iniciadas dessa maneira deram origem a contatos profissionais, gigs, trabalhos em estúdio e amizades.

“Minha experiência foi como produtor, sempre mandei promos para artistas de vários países, e não só os superstars, artistas que estavam na mesma fase de carreira que eu, e isso foi gerando contatos, gigs, lançamentos, trabalho no estúdio, além de grandes amizades!”

A maneira como essas oportunidades surgiram explica por que HNGT coloca tanta importância no ato de produzir quando fala com quem ainda está começando. Sua própria experiência não oferece, segundo ele, uma fórmula para crescer como DJ. O que existe é uma rotina construída em torno do estúdio.

“Eu não acho que tenho propriedade para falar exatamente sobre como crescer como DJ, porque, olhando para a minha própria trajetória, praticamente tudo que conquistei e tudo que aconteceu na minha vida veio através da música e da produção.”

Produzir muito, experimentar, errar, aprender e continuar aperfeiçoando o trabalho aparecem como etapas necessárias até que uma identidade comece a se tornar reconhecível.

“Fazer cada vez mais. Até chegar num ponto em que fique difícil para as pessoas não reconhecerem que aquilo é seu.”

Existe também o trabalho de colocar essas músicas em circulação. Demos para gravadoras, promos, mensagens para outros artistas e novas conexões fazem parte dessa dinâmica, desde que não substituam aquilo que está sendo construído musicalmente.

“Depois, claro, tem a parte de mostrar seu trabalho. Mandar DM para artistas, conseguir e-mails, enviar demos, promos para gravadoras, tentar criar conexões e conhecer pessoas. Mas sem forçar demais. Acho que a música precisa falar por você.”

Essa perspectiva acompanha uma trajetória que já levou suas produções ao suporte de Amelie Lens, Victor Ruiz, Enrico Sangiuliano, Wehbba e HI-LO. Ao mesmo tempo, a circulação internacional fez HNGT observar como esse tipo de reconhecimento ainda influencia a percepção sobre artistas brasileiros dentro do próprio país.

Para ele, existe uma valorização histórica daquilo que recebe primeiro a aprovação de nomes ou mercados estrangeiros, comportamento que não se restringe à música eletrônica.

“Eu acho que no Brasil, a gente tem muito forte essa pira de que tudo que vem de fora é melhor, vale mais, tem mais qualidade, e isso está retratado não só na música como em praticamente tudo. Então independente do quão bom trabalho você está fazendo, o valor de fato vai sempre vir com outro peso quando o reconhecimento de alguém de fora oficializar ele pro Mercado. Não sei dizer o motivo, mas acho que é algo que ainda está muito enraizado na nossa sociedade no geral.”

Mesmo diante dessas dinâmicas de mercado, HNGT retorna ao princípio que orientou boa parte de seu percurso até aqui.

“No fim, eu não acredito muito em uma fórmula para crescer como DJ. Para mim, foi muito mais sobre fazer música, desenvolver uma identidade própria e continuar fazendo até as coisas começarem a acontecer.”

O momento atual reúne alguns desses caminhos. “The Reason” chega nesta sexta-feira, novos trabalhos seguem em desenvolvimento e uma nova colaboração com Victor Ruiz está prevista para novembro. 

Neste sábado, 22 de agosto, HNGT também retorna ao Club Vibe, em Curitiba, onde integra a programação ao lado de Acid Asian.Para a noite, ele prepara músicas novas e uma intensidade diferente da que costuma trabalhar.

Como será responsável por entregar a pista para Acid Asian, pretende acelerar o set e conduzir os últimos momentos de seu show em direção ao que vem na sequência.

“Podem esperar com certeza muita música nova, e uma intensidade diferente.. O headliner é o Japa e pra entregar a pista pra ele vou dar uma acelerada mais do que geralmente costumo tocar, tenho certeza que a noite vai ser insana do início ao fim!”

Quase seis anos depois daquela noite no Warung, o caminho que Ricardo decidiu seguir continua encontrando no HNGT novas formas de se desenvolver. Os gostos mudaram, outras referências entraram em suas produções e sua música chegou a lugares que, no início, ainda pareciam distantes. A busca agora segue menos preocupada em encontrar uma definição definitiva para seu som e mais interessada em continuar desenvolvendo aquilo que ele reconhece como próprio.



Assista ao set de HNGT Live at @SurrealPark

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