FLÁVIA SOUZA
“WHO THE F*CK IS FLÁVIA SOUZA?”

A pergunta surgiu quando boa parte do público ainda não tinha uma resposta. Em 2024, Flávia Souza preparava o set que apresentaria em uma das etapas do Circuito, da Park.Art, quando decidiu criar uma introdução própria. Um amigo locutor gravou a frase, sua voz entrou com “Nunca menospreze quem está chegando” e referências à MTV, ao rock e às memórias musicais que carregava ajudaram a construir aquele começo.
A preparação levou cerca de 12 horas dentro do quarto. Sem equipamento próprio, conseguiu uma RX3 emprestada e se dedicou ao set que enviaria para o concurso. Entre mais de uma centena de inscrições, foi selecionada para uma das 40 vagas. Até aquele momento, sua experiência tocando diante de outras pessoas se resumia praticamente à própria formatura.
Na etapa presencial, venceu por votação do público e avançou para a final, onde ficou entre os primeiros colocados e foi a única mulher entre os finalistas.
A pergunta que abriu aquele set acabaria acompanhando uma história que, para ser entendida, começa muito antes do Circuito.
A música já fazia parte da rotina dentro de casa. O pai era DJ de flashback e mantinha uma coleção de discos que atraía os amigos pelas novidades que chegavam até ele. Pink Floyd, The Beatles e outros clássicos estavam entre as referências que vieram dessa convivência.
Da mãe ficaram outras lembranças musicais. Flávia recorda dela cantando e dublando Madonna pela sala, além da relação com o rock e o motociclismo. Filha única, cresceu muito próxima dos dois, uma ligação que permanece entre as mais importantes de sua vida.
Quando fala sobre suas maiores inspirações, a resposta não vem de algum artista que acompanhou ao longo dos anos.
“São meus pais. Definitivamente.”
O pai também teve participação importante na independência que desenvolveu cedo. Trabalhar, conquistar as próprias coisas e não depender de outra pessoa são aprendizados que associa diretamente a ele. A liberdade que recebeu dos pais para fazer suas escolhas veio acompanhada dessa responsabilidade.
O canto cresceu nesse mesmo ambiente.
“Eu acho que o ouvido da gente também se forma desde cedo.”
Mesmo antes de imaginar uma carreira na música, cantava, escrevia letras, frequentava karaokês e aproveitava qualquer violão por perto para colocar a voz em prática. Quando começou a frequentar festas de música eletrônica, surgiu também a vontade de participar daquele universo, mas faculdade, trabalho e outras prioridades adiaram a possibilidade de estudar para isso.
Nesse período, Flávia se formou em Publicidade, e hoje utiliza conhecimentos da área na própria carreira. A moda, uma de suas grandes paixões, também sempre esteve presente em sua vida e na maneira como se expressa.
Entre os artistas que escutava estava Adam K, especialmente pelo Progressive House. Mais tarde, Vintage Culture despertou outra identificação ao incorporar à música eletrônica clássicos que ela reconhecia dos discos do pai.
Em 2016, uma resposta a uma publicação de Adam K nas redes sociais iniciou uma amizade. Ao contar que cantava, começou a enviar alguns vocais, além de trocar músicas e referências com o produtor. A carreira como DJ e produtora ainda não tinha começado.
Os dois se conheceram pessoalmente em 2019, durante uma passagem do canadense pelo Brasil. Três anos depois, quando ele voltou a Curitiba, surgiu o convite para gravar um vocal para uma produção que desenvolvia com Lucas Ruiz, o Vintage Culture.
Nascia ali “Tudo Bem, Tudo Bom”.
A música foi tocada pela primeira vez no Warung Beach Club, onde Flávia foi convidada a estar com Adam K e Vintage. Depois, a faixa seguiu com Vintage durante uma temporada internacional. Ela lembra de ouvir sua voz chegando a Ibiza, na Espanha, Mykonos, na Grécia, e ao Coachella, nos Estados Unidos, além de outros festivais.
Para alguém que acompanhava Adam havia anos e encontrava em Vintage Culture outra de suas referências, a experiência colocou sua própria voz dentro de um universo que até pouco tempo observava de fora.
“Até um tempo atrás, eu tava sonhando em ser como essas pessoas. Hoje eu estou produzindo uma música com essas pessoas.”
Flávia também interpreta encontros como esse a partir de uma dimensão bastante pessoal. A relação com Deus, a espiritualidade e a energia que percebe nas pessoas e nos ambientes fazem parte da maneira como enxerga alguns acontecimentos de sua vida.
“Eu sou muito de energia. Sou muito espiritual também, sou muito espiritualista.”
Com “Tudo Bem, Tudo Bom”, veio também a vontade de não parar naquela experiência.
“A ideia não era ficar presa só a uma música. A ideia era fazer mais. Eu falei: ‘cara, eu amei isso e eu quero mais’.”
Começou pela produção musical antes mesmo de fazer o curso de DJ. Depois veio a discotecagem e, novamente no estúdio, buscou diferentes profissionais para conhecer outras maneiras de trabalhar. Em vez de adotar um único método, preferiu experimentar e incorporar aquilo que fazia sentido para o som que queria desenvolver.
Foi nesse período que o Circuito da Park.Art entrou em sua história. Depois da competição, os estudos continuaram e os convites se tornaram mais frequentes. Desde que começou a tocar, conta que dificilmente passou um mês sem uma apresentação.
Quando decidiu lançar sua primeira música, “The Power of the Touch” levou para o estúdio uma característica que já aparecia em seus sets: a vontade de experimentar e aproximar referências diferentes dentro de sua própria linguagem.
A faixa nasceu a partir do Tech House, mas abriu espaço para elementos de Indie Dance, synths, piano, uma atmosfera melódica e um drop mais pesado. Quando a testou pela primeira vez, em Campo Largo, deixou para o encerramento. O set vinha pelo Tech House e gradualmente ganhou graves mais intensos antes da entrada da música.
“Eu sou DJ de Tech House, mas eu gosto de trazer elementos novos. Eu acho que nunca deve se prender.”
Essa liberdade fica ainda mais evidente quando se observa o que pode aparecer em seus sets. Lady Gaga e Britney Spears encontram espaço dentro da mesma seleção que pode buscar um clássico do rock pouco depois. As referências mudam, mas são incorporadas sem abandonar a linha que vinha sendo construída.
É uma combinação que se aproxima da própria história de quem cresceu ouvindo rock, sempre cantou, acompanhou o pop e encontrou mais tarde na música eletrônica um lugar para reunir essas influências.
“Eu gosto de trazer essas batidas mais pesadas porque eu acho que é mais a minha cara do rock'n'roll mesmo. Eu sou do rock'n'roll.”
O canto também começou a ocupar um espaço cada vez mais próximo dentro do projeto. Com LoudTech, em “Crystalised” de The XX, participou das escolhas de timbres e gravou os vocais da releitura. Mais tarde, levou a música para uma apresentação ao vivo.
Naquele dia, tomou uma decisão específica: não queria efeitos na voz. O microfone foi conectado diretamente ao equipamento e permaneceu seco durante a performance. A escolha partia da própria autocobrança e da vontade de deixar que as pessoas ouvissem sua voz sem recursos adicionais.
“Existe uma forma de entregar a coisa mais crua possível, pras pessoas verem que eu sei cantar? E aí veio só o microfone.”
Fez novamente em outra apresentação e começou a pensar em outras maneiras de incorporar o canto aos sets, sem necessariamente transformar toda a apresentação em um formato ao vivo.
“A ideia é realmente trazer a voz como um instrumento.”
Em “Keep Reflection”, a colaboração mais recente aconteceu com Bry Ortega. DJ, produtor e baterista, Bry trouxe o trabalho com as baterias e o arranjo, enquanto ela contribuiu com os vocais e escolhas de timbres. A produção reúne características dos dois e chegou a um resultado no qual as identidades de ambos permanecem reconhecíveis.
A sintonia também apareceu no processo criativo e em menos de duas horas, a letra foi escrita, os vocais gravados e a música já estava praticamente finalizada. “Keep Reflection” ainda não tem data prevista para chegar ao público.
A abertura que demonstra no estúdio também faz parte da maneira como se relaciona com as pessoas. Flávia se descreve como alguém transparente, que acredita nas conexões que constrói e procura não estabelecer uma distância entre a artista e quem está do outro lado da pista.
“É a entrega. É a energia. É olhar pra vocês, ver vocês se divertindo.”
Quando termina de tocar, gosta de permanecer por perto, conversar com o público e com quem trabalha nos espaços onde se apresenta. Para ela, a troca não precisa existir somente durante o set.
Essa atenção às pessoas também interfere no que escolhe tocar. Algumas faixas podem permanecer durante determinado período, mas repetir exatamente uma apresentação não faz parte de sua lógica.
“Você me viu tocar ontem, você vai me ver tocar hoje. Você vai ouvir a mesma coisa? Eu sempre vou servir coisa nova.”
Em pouco mais de dois anos, a música passou a ocupar profissionalmente um espaço que durante muito tempo precisou dividir com outras prioridades. A velocidade com que as coisas aconteceram veio acompanhada por uma vontade constante de estudar, produzir e experimentar.
“Eu já perdi muito tempo não fazendo o que eu amo. Então, o tempo que eu tô fazendo o que eu amo, eu quero aproveitar o meu máximo.”
Entre os interesses que acompanham Flávia fora da música está a leitura. “O Ato Criativo: Uma Maneira de Ser”, de Rick Rubin, é um dos livros aos quais costuma retornar, principalmente pela maneira como aproxima criatividade, meditação e espiritualidade, assuntos com os quais já mantém uma relação pessoal.
A espiritualidade que apareceu ao falar dos encontros de sua carreira retorna quando explica a maneira como deseja usar aquilo que encontrou na música. Para Flávia, a relação com Deus também passa pela ideia de fazer algo positivo com aquilo que recebeu e pela forma como escolhe se relacionar com quem encontra pelo caminho.
“Deus me deu o dom da música, então eu vou usar isso para ser a melhor pessoa que eu possa ser.”
É uma frase que aproxima diferentes partes de sua história sem precisar separá-las. A filha que cresceu cercada pelos discos do pai e pelas referências da mãe, a cantora que existia antes da DJ, a publicitária, a mulher ligada à moda e à espiritualidade, a produtora que ainda testa novas possibilidades para o próprio som.
“WHO THE F*CK IS FLÁVIA SOUZA?”
Dois anos depois de usar a pergunta para se apresentar a uma pista que ainda pouco sabia sobre ela, a resposta ganhou outras camadas. Algumas vieram da música; muitas já estavam ali antes dela se tornar profissão, mas Flávia prefere resumir de outra forma:
“Eu só quero ser eu.”







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