JAYBOO
Texto: Guilherme Dezone | Entrevista: Paulo Oliveira
DJ, produtor musical e hoje consultor da Pioneer DJ no Brasil, Mateus Basso construiu uma carreira que começou nas pistas do país no ano 2000 e ganhou, ao longo do caminho, outra camada, a de professor e criador de conteúdo, hoje responsável por um canal no YouTube com mais de 8 milhões de visualizações.
São mais de 60 lançamentos assinados nos projetos Mateus B e Jayboo, por selos como Toolroom, Mr Carter, Materialism, Witty Tunes e Hotfingers, apresentações em 15 estados e seis países e uma passagem marcante pelo Miller SoundClash. Em 2017, venceu a etapa nacional da competição e representou o Brasil na final internacional, realizada em Las Vegas, onde conquistou o segundo lugar.
Em conversa com a Frequency, o artista revisita diferentes momentos dessa trajetória, passando pelos anos de ensino, pela produção de conteúdo, pela relação com a tecnologia e pelas mudanças que enxerga para a profissão de DJ.

Os equipamentos despertaram sua atenção desde os primeiros anos. Saber que um botão fazia determinada coisa nunca era suficiente. Ele queria entender exatamente para que servia, como funcionava e de que outras maneiras poderia utilizar aquele recurso. A curiosidade técnica também apareceu na maneira de tocar, especialmente no uso de efeitos e loops.
"Eu costumo brincar que gosto mais de efeitos do que de tocar propriamente dito. Sempre tive essa necessidade de dar o meu toque nas músicas. Dificilmente consigo simplesmente deixar uma faixa tocando inteira sem fazer alguma coisa. Parece que preciso estar 'trabalhando' nela."
No começo, esse comportamento também gerava julgamentos. O uso excessivo de efeitos e a falta de precisão em algumas escolhas fizeram parte dos primeiros anos dessa busca. A maturidade trouxe outra percepção sobre a técnica e sobre o momento de utilizar ou não determinado recurso.
"Com maturidade e muita prática, fui aprendendo quando fazer e, principalmente, quando não fazer. Aos poucos, essas ferramentas deixaram de ser simplesmente efeitos e passaram a ser uma forma de expressão."
Em 2007, começou a dar aulas de discotecagem e produção musical no Centro Europeu/AIMEC Curitiba, onde permaneceu até 2021. O ensino surgiu de maneira natural e acabou se tornando uma parte importante de sua carreira. A dinâmica da profissão, por outro lado, faz com que esse espaço nem sempre seja fácil de conciliar com períodos de maior atividade artística.
Quando um DJ está em alta, viagens, apresentações e produção musical costumam concentrar a rotina. No caso de Jayboo, a especialização no ensino fez com que essa atividade continuasse fazendo sentido mesmo diante dessa dinâmica.
"No meu caso, eu acabei me especializando nisso e descobri que ensinar é uma coisa que realmente me realiza."
As aulas também mantiveram o contato com a prática artística. Pesquisar novas técnicas, desenvolver ideias e testar recursos fazia parte da preparação do conteúdo, inclusive nos períodos em que estava tocando menos.
"Ensinar me ajuda muito a manter meu lado artístico ativo, porque me obriga a estar sempre me atualizando, pesquisando e desenvolvendo novas técnicas e ideias para levar aos alunos. Às vezes posso passar um período tocando menos, mas em cada aula eu estou em contato com a arte novamente. Estou usando os equipamentos, testando recursos, criando possibilidades e, muitas vezes, até redescobrindo coisas que eu mesmo não utilizava há algum tempo."
O que começou entre professor e aluno também ganhou espaço na internet. A criação de conteúdo aparece como uma maneira de ampliar o alcance dos conhecimentos, técnicas e truques compartilhados nas aulas.
"Conforme fui compartilhando esses conhecimentos e os truques que descobria, percebi que criar conteúdo seria uma maneira de potencializar muito esse alcance. A sala de aula me mostrou que eu gostava de ensinar, e a internet me deu a possibilidade de levar isso para muito mais DJs."
Hoje, o canal no YouTube ultrapassa 8 milhões de visualizações. As redes sociais também passaram a fazer parte da construção da carreira de um artista, tanto pela possibilidade de ampliar a base de fãs quanto pelas oportunidades que podem surgir a partir de um conteúdo.
"Cada vez mais eu vejo a criação de conteúdo como parte da vida do artista. As redes sociais se tornaram uma das principais formas de ampliar sua base de fãs, mostrar sua identidade e, consequentemente, gerar novas oportunidades. Muitas vezes um conteúdo certo chega a alguém que nunca te viu tocar e pode despertar o interesse de um novo fã, de um promoter ou de um contratante. Hoje acho muito difícil separar completamente a carreira artística da presença digital."
Na hora de começar, a preocupação com estrutura ou alcance não deveria impedir a produção. Para Jayboo, vale mostrar processos que já fazem parte do trabalho, em vez de tentar parecer algo diferente na internet.
"Para quem está começando, minha principal dica é não esperar ter o equipamento perfeito, a câmera perfeita ou achar que todo conteúdo precisa viralizar. Comece mostrando aquilo que realmente faz parte de você. Se você produz, mostre seu processo. Se toca, mostre suas referências, suas técnicas, seus sets. Consistência e autenticidade acabam sendo muito mais importantes do que tentar parecer algo que você não é."
Depois de tantos anos dando aulas, alguns padrões também apareceram entre os alunos que estavam começando. Na parte técnica, a dependência da tela durante a mixagem é um deles. O desenvolvimento do ouvido, para o DJ, continua sendo necessário mesmo com a quantidade de recursos visuais disponíveis.
"Tecnicamente, uma coisa que vejo bastante hoje é o aluno tirar o fone e fazer praticamente toda a sincronização olhando para a tela. Os recursos visuais são incríveis e devem ser usados, mas acho importante primeiro desenvolver o ouvido e a percepção. O DJ precisa conseguir fazer uma mixagem redonda confiando mais no que está ouvindo do que no que está enxergando."
Na carreira, a dificuldade costuma aparecer quando o aprendizado técnico é tratado como suficiente para gerar oportunidades. A inserção na cena passa pela presença nos lugares e pela construção de vínculos com outros profissionais.
"Na carreira, um erro comum é reclamar da falta de oportunidades sem realmente estar inserido no meio. Não basta aprender a tocar e esperar que os convites apareçam. É importante frequentar os lugares, conhecer pessoas, criar vínculos genuínos com outros DJs, promoters, produtores e donos de clubs e fazer parte daquela cena."
Entre os alunos que evoluem mais rápido, a disposição para errar é outra característica que chama sua atenção.
"E uma característica que vejo nos alunos que evoluem mais rápido é não ter medo de errar. Quem aceita que nem toda mixagem vai ser perfeita experimenta mais, pratica mais e acaba aprendendo muito mais rápido."
O acesso à tecnologia, ao conhecimento e aos equipamentos também mudou as condições de aprendizado. Para Jayboo, a democratização desses recursos permite que mais pessoas desenvolvam ideias criativas, mas torna mais difícil impressionar apenas pelo domínio de uma técnica.
"Hoje o acesso à tecnologia, ao conhecimento e aos equipamentos é muito maior. Isso é incrível porque permite que muito mais pessoas aprendam, pratiquem e desenvolvam ideias criativas. Ao mesmo tempo, também cria um cenário em que é cada vez mais difícil impressionar alguém simplesmente dominando uma técnica ou fazendo algo tecnicamente complexo."
A identidade, nesse contexto, passa pelas escolhas que cada artista faz. Seleção musical, maneira de construir uma pista, energia, técnica e personalidade aparecem como elementos dessa construção.
"Para mim, é ser genuíno, descobrir o que existe de único em você e potencializar isso. Por isso acredito que a grande diferença está na identidade. É a seleção musical, a maneira de construir uma pista, a energia, a técnica, a personalidade e as escolhas que você faz. Tecnologia todo mundo pode ter acesso; o desafio é descobrir o que você faz com ela que tem a sua assinatura."
A maneira como essas escolhas aparecem na prática também tem relação com a personalidade de quem está tocando. No caso de Jayboo, a performance passa pela adrenalina, pelo improviso e pela disposição para correr alguns riscos. Ele se define como extrovertido, pouco perfeccionista e interessado em experimentar.
A inteligência artificial abre outra possibilidade para a profissão. Entre os cenários que imagina está o de uma ferramenta capaz de analisar uma pista em tempo real, observando movimento, dança, reação das pessoas e até dados como frequência cardíaca.
"Eu já viajo um pouco imaginando um futuro em que uma IA consiga analisar a pista em tempo real: movimento, dança, reação das pessoas e, quem sabe, até dados como frequência cardíaca. A partir disso, ela poderia interpretar como o público está reagindo ao que está sendo tocado."
A partir desses dados, ele imagina uma ferramenta capaz de sugerir caminhos musicais para o DJ, funcionando como uma nova fonte de informação durante a apresentação.
"Dá para imaginar também uma IA dizendo: “Pelos dados que estou enxergando dessa pista, talvez seja melhor seguir musicalmente por esse caminho do que por aquele”. Isso não significa necessariamente substituir a sensibilidade do DJ, mas oferecer uma nova camada de informação para ele trabalhar."
A velocidade com que a inteligência artificial avança torna difícil prever onde essas possibilidades vão chegar. Ainda assim, a decisão artística e a capacidade de criar conexão com as pessoas continuam, para ele, como elementos fundamentais.
"O crescimento da IA está tão rápido que é difícil prever onde tudo isso vai parar. E justamente por isso acho esse momento tão interessante. As ferramentas vão mudar muito, mas ainda acredito que a decisão artística e a capacidade de criar conexão com as pessoas vão continuar sendo fundamentais."
A definição de sucesso também mudou ao longo da carreira. Houve momentos de maior e menor vontade de conquistar esse objetivo, enquanto a própria ideia de sucesso foi se transformando com o amadurecimento. O lado artista continua presente, mas já não ocupa o mesmo lugar de quando era mais jovem.
Hoje, uma das experiências que mais despertam satisfação está relacionada ao caminho percorrido por outros DJs que passaram por seus treinamentos.
"Atualmente, uma das coisas que mais me dá brilho nos olhos é ver alunos e DJs que treinei se destacando, conquistando espaço e construindo suas próprias carreiras. Existe uma satisfação enorme em saber que, de alguma forma, fiz parte daquele processo."
A vontade de tocar continua, mas a rotina mudou. A ideia de passar todas as semanas viajando e rodando o mundo atrás de gigs já não faz parte de seus planos da mesma maneira. Ao lado da atividade artística, o trabalho junto à AlphaTheta e Pioneer DJ no Brasil o mantém próximo da evolução dos equipamentos e das novas tecnologias.
"Eu ainda amo tocar e acredito que isso vai estar comigo para sempre, mas já não tenho aquela vontade de passar todas as semanas viajando e rodando o mundo atrás de gigs. Sou muito grato por ter encontrado uma maneira de continuar vivendo daquilo que sempre amei: música e tecnologia. Hoje, trabalhando junto à AlphaTheta e Pioneer DJ no Brasil, consigo estar muito próximo da evolução dos equipamentos e das novas tecnologias."
A próxima etapa continua ligada ao aprendizado e à produção de conteúdo, agora com uma experiência de mais de duas décadas entre música, tecnologia e ensino.
"Isso mantém minha curiosidade muito viva. Quero continuar entendendo cada novo recurso, acompanhando as tendências, experimentando e transformando esse conhecimento em conteúdo que ajude outros DJs não apenas a usar melhor os equipamentos, mas também a se entender melhor como artistas."







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