SCURE
- Guilherme Dezone

- 25 de jun.
- 5 min de leitura
Após uma sequência de lançamentos relevantes e apresentações de destaque, Scure vive uma fase de consolidação na carreira. Em 2025, a track Whispering Sky, lançada pela Stripped Digital com remix de Colourless, alcançou o Top 1 no Hype de Eletrônica e o Top 6 em Releases de Progressive House no Beatport.
Em 2026, expandiu sua discografia e lançou o EP Wildfire em parceria com Bertoldi, pela Outer Space Oasis Rec, e em abril trouxe Joyful Way, novamente ao lado de Bertoldi, e o solo Jungle Dance, ambos pela Stripped Digital. No mesmo ano, realizou o warm-up de Vintage Culture na Pedreira Paulo Leminski para mais de 10 mil pessoas, fortalecendo sua presença na cena eletrônica brasileira.

Em entrevista à Frequency, Scure falou sobre a construção da sua identidade musical e a trajetória da Utopia, projeto que transformou encontros entre amigos em uma comunidade dedicada à música eletrônica.
A história do curitibano Gustavo Machado teve início nas calçadas de sua própria cidade. Na adolescência, a caminho da escola nas manhãs de sábado, ele acompanhava a extensa fila de pessoas vestidas de preto saindo do Club Vibe. Mesmo sem idade para entrar, a curiosidade sobre o que acontecia ali dentro despertava uma vontade de entender aquele universo. Anos depois, ele cruzou aquelas portas e passou a construir suas próprias noites na cena local.
A influência paterna garantiu que Scure crescesse ouvindo música eletrônica ainda na era dos Discmans e MP3 players. Contudo, o momento em que a vivência de pista o despertou para uma busca artística definitiva aconteceu aos 18 anos, ao frequentar o lendário Warung Beach Club.
"Foi ali que entendi que música eletrônica podia ser muito mais do que uma sequência de músicas: podia ser uma experiência."
Pouco tempo depois, assistir o set de Hernan Cattaneo pela primeira vez definiu sua identidade musical e aprofundou sua conexão com o progressive house.
A pandemia funcionou como o ponto de partida de sua carreira. Com as festas paralisadas, um amigo levou uma controladora para um churrasco em sua casa.
"Comecei a brincar de mixar e, naquele momento, descobri o quanto eu gostava de conduzir a energia de um ambiente através da música."
O interesse inicial logo exigiu profissionalização: ele comprou seu próprio equipamento, aprendeu o básico sozinho, buscou um curso de DJ e engatou na nova profissão.
Naquele momento, Curitiba carecia de espaços dedicados à sonoridade que Scure tanto amava. Diante disso, ele tomou a frente e criou a sua própria alternativa. Assim nasceu a Utopia. O projeto, iniciado em encontros de fim de semana em chácaras para reunir amigos isolados pelo período pandêmico, cresceu de forma acelerada. Com cerca de 20 edições realizadas, a grande maioria com ingressos esgotados, a Utopia se consolidou como uma verdadeira comunidade.
"O próprio significado de 'Utopia' representa muito isso: um lugar ideal de felicidade, conexão e harmonia entre as pessoas."
Cofundador da label, Scure se destaca também por sua curadoria musical. O investimento em decoração, identidade visual e até em vestuário fez com que o público literalmente vestisse a camisa da marca. Na seleção dos artistas que compõem cada noite, a equipe valoriza, além da técnica, o senso de pertencimento à comunidade.
"Muitos DJs tocaram pela primeira vez em grandes eventos através da Utopia. Procuramos artistas que compartilhem da nossa visão de construir uma experiência profunda com o público"
Essa consistência de pesquisa e visão de pista abriu caminho para palcos cada vez maiores. O artista já dividiu line-ups com grandes nomes como: Einmusik, Facundo Mohr, Ezequiel Arias, Amonita, Lost Desert, YokoO e Nacho Varela, e com brasileiros como Vintage Culture, Maz, Antdot, Binaryh e Curol.

A estética musical de Scure e da Utopia acompanha essa visão de jornada. O progressive house atua como a espinha dorsal, e seus sets transitam com fluidez por deep house, organic house, melodic house e indie dance. A regra de ouro é a construção narrativa. Sua pesquisa acompanha de perto o trabalho de Hernan Cattaneo, sua maior inspiração, e lendas como Sasha e John Digweed, além de produtores de groove refinado como Dulus, Marsh, Simon Doty, Adam Ten e Jimi Jules.
"Minha maior inspiração é observar como esses artistas conseguem construir atmosferas. É exatamente isso que procuro fazer quando toco."
O percurso na música, no entanto, apresenta seus desafios imprevisíveis. No último ano, em um momento em que sua carreira ganhava força, Scure sofreu uma fratura na perna. Os meses de afastamento forçado lhe ensinaram sobre a volatilidade da indústria.
"O mercado da música eletrônica é muito dinâmico. Às vezes você precisa recomeçar algumas etapas e isso também fortalece."
Esse período de pausa coincidiu com um hiato estratégico da própria Utopia. A equipe percebeu que o valor da label poderia ser elevado caso as edições se tornassem mais pontuais e impactantes. O retorno aconteceu de forma marcante: no dia 13 de junho, a marca assinou o evento de estreia do Brasil na Copa do Mundo no rooftop do Club Vibe, com Fabe como headliner. A oportunidade foi buscada pela própria equipe, que já havia realizado um evento no mesmo espaço durante a Copa de 2022.
“Foi uma edição diferente das tradicionais da Utopia, com uma proposta mais voltada ao deep house e ao minimal house. O Fabo fez um trabalho incrível com seus discos, e eu também preparei um set diferente do que costumo tocar. Mesmo com várias opções de eventos acontecendo na cidade, foi muito especial reencontrar pessoas que realmente acompanham a Utopia. No fim, conseguimos entregar exatamente aquilo que sempre buscamos: boa música, amigos reunidos e uma atmosfera leve.”
A consolidação em Curitiba foi apenas o ponto de partida. Após se apresentar em Balneário Camboriú, Florianópolis e São Paulo, o artista mira voos ainda mais altos: a expansão internacional figura entre os objetivos para os próximos anos, assim como percorrer palcos como Green Valley e Surreal Park, explorar o Nordeste e a Chapada, e consolidar cada vez mais sua presença fora do Brasil.
O atual momento da Utopia segue essa mesma curva de amadurecimento, focando na exclusividade dos encontros.
"Então fica até um recado para quem acompanha a label: valorizem cada edição. Elas serão mais raras, mais pensadas e feitas com ainda mais carinho. Talvez aconteçam apenas uma ou duas vezes por ano."
Para o futuro, os objetivos continuam ambiciosos. O Warung Beach Club marcou sua história, e a gratidão por cada noite vivida naquele espaço segue como parte essencial de quem ele se tornou como artista. A motivação principal, porém, segue inalterada desde o primeiro toque na controladora.
"Enquanto eu continuar sentindo a mesma paixão, vou seguir produzindo, pesquisando e buscando evoluir. O Scure existe para proporcionar experiências através da música. Esse sempre foi e sempre será o meu maior propósito."






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